Especial

Revista Mercado Edição 47 - novembro 2011

Enfim, livres da extinção

Da Redação

Os Waimiri Atroari comemoram o renascimento do seu povo

Nasce índio de número 1.500, da etnia Waimiri Atroari: o bebê Ketamyna Atroari simboliza que a comunidade superou a extinção e confirma o recado do seu povo: “Digam ao mundo que vivemos”

Nasceu Ketamyna Atroari, a milésima quingentésima índia da comunidade Waimiri Atroari, que vive na divisa dos estados do Amazonas e Roraima, próxima ao lago da usina hidrelétrica Balbina. Com quatro quilos e 49 centímetros, a pequena Ketamyna (pronuncia-se Quetamuná) é uma prova de vida para um povo que, em 1988, somava apenas 374 indivíduos. Ketamyna nasceu no dia 4 de novembro, na Aldeia Paryry (pronuncia-se paruru).
Os Waimiri Atroari sobreviveram à extinção – morriam em média 20% ao ano e hoje têm taxa de natalidade de 6% ao ano – graças ao programa Waimiri Atroari, implementado pela Eletrobras Eletronorte em parceria com a Funai,  sob a orientação do indigenista Porfírio Carvalho. Segundo ele, “os índios estão todos muito bem, vivendo em suas terras sem invasores, sem perturbação, de acordo com sua cultura”.
Mas nem sempre foi assim. “Em 1986 reencontrei os Waimiri numa situação muito difícil. Estavam doentes, tristes, perambulando pela rodovia BR-174, pedindo carona a caminhoneiros, dependentes de alimentação e doações. Morriam, em média, 20% ao ano. Podia-se dizer que estavam caminhando para o extermínio. Aquele povo que conheci em 1969, guerreiros altivos, defensores do seu território e de suas vidas, estava triste, aguardando algo que não sabia exatamente o que era. Ainda não havia demarcação nem definição dos limites de suas terras”, explica o indigenista da Eletrobras Eletronorte.

Em 1988, os Waimiri Atroari somavam apenas 374 indivíduos, conviviam com 20% de taxa de mortalidade anual e tinham extinção prevista para os anos 1990

ndial, o Programa inspira políticas públicas, investe na valorização étnica e faz a diferença na história das comunidades indígenas da Amazônia. Homens, mulheres, crianças e idosos caminham saudáveis pelas aldeias onde a comida é farta e, o sistema de organização social, uma aula de cidadania. Tudo por meio do programa idealizado para compensar os impactos provocados pelo alagamento de 30 mil hectares das terras indígenas – hoje demarcadas em 2.585.911 ha – pela hidrelétrica Balbina.

Saúde

Um dos principais fatores responsáveis pelo crescimento populacional desses índios é o subprograma de saúde. O objetivo é garantir boas condições de vida à população Waimiri Atroari, valorizar a medicina tradicional e repassar conhecimentos das outras formas de medicina. Na reserva existem 19 postos de saúde e oito laboratórios. As atividades são realizadas por uma médica, enfermeiras, odontólogas, 18 agentes técnicos e um motorista, com o apoio de 39 agentes técnicos de saúde e 12 laboratoristas indígenas. No início, todos os laboratoristas eram brancos, mas depois os primeiros Waimiri foram sendo treinados e repassaram os conhecimentos para outras pessoas da comunidade. Hoje são 12 escolhidos pelo povo.

Educação

Em relação à educação não é diferente. O método é único no mundo, desenvolvido exclusivamente para eles. Primeiro, aprendem a escrever na língua própria e, quando já estão interpretando a escrita, começam a aprender o português e a matemática. São bilíngues. As aulas não se limitam à escola, podem ser explorados outros espaços como recurso didático, a exemplo de caçadas, pescarias, construção de malocas. São 19 escolas, 54 professores Waimiri Atroari e sete não índios que auxiliam em disciplinas como ciências, geografia e matemática. No início do Programa, não havia professores da etnia, o que foi acontecendo com a realização de cursos de capacitação e formação.

Produção

A valorização da capacidade de produção dessa comunidade também fez a diferença. Antes do Programa, os Waimiri Atroari viviam a desagregação de seus processos produtivos, passando para uma dependência alimentar. Com o Programa, os índios voltaram a realizar seus roçados tradicionais e sua independência alimentar foi resgatada.

Uma festa para Ketamyna

As aldeias Waimiri Atroari impressionam pelo tamanho, pela limpeza e pela magnitude das malocas. Em breve uma delas receberá a festa de comemoração pelo nascimento de Ketamyna Atroari e, durante dias, eles cantarão, dançarão e beberão uma de suas originais preparações culinárias, o mingau de buriti. O coco do buriti é coletado na mata, triturado e misturado à tapioca. Na cozinha, as mulheres também preparam peixes, caças e mingau de banana. Os Waimiri Atroari não consomem álcool nem qualquer outro tipo de droga.
Para Porfírio Carvalho, idealizador do Programa Waimiri Atroari, o trabalho mudou a vida dessa comunidade indígena. “Não é um trabalho qualquer, mas de sentimento, de amor. Hoje, os Waimiri Atroari são um povo orgulhoso da sua vida, do seu território e da sua cultura”, enfatiza Carvalho.
Em 2003, nas festividades do nascimento do 1000º Waimiri, o cacique Mário Pawere comemorou o fim da ameaça de extinção, saudou os convidados brancos e deixou o recado dos Waimiri Atroari: “Digam ao mundo que vivemos!”

Em 2003, os Waimiri-Atroari festejaram o nascimento do milésimo bebê, Iawyraky, que hoje está com oito anos

“Digam ao mundo que vivemos!”