Comportamento

Revista Mercado Edição 48 - dezembro 2011

É hora de pedalar

Por Evaldo Pighini com agências (*)

Nos últimos anos, o uso da bicicleta como meio de locomoção vem aumentando gradativamente. Até bem pouco tempo atrás, a bicicleta era vista como meio de transporte das camadas menos favorecidas da sociedade ou era usada somente para lazer e nos fins de semana. Mas tudo isso são preconceitos que vêm perdendo força.
De acordo com a Abraciclo, o Brasil é hoje o quinto maior mercado mundial de bicicletas, atrás da China, Estados Unidos, Japão e Índia. Do total de bicicletas circulando no país, 50% são usadas em substituição a veículos poluidores – ou seja, são pessoas que vão ao trabalho, à escola, à faculdade e à igreja pedalando. Como forma de lazer é a preferência de 17%. Um dado que pode ser visto como um bom sinal é que 32% do total de bicicletas são de uso infantil, ou seja, utilizadas por crianças que, dessa forma, estariam dedicando menos tempo a video games, redes sociais e outros passatempos sedentários.
E quando o assunto é poluição, a atenção com as questões ambientais tem sido hoje um aspecto central de todas as atividades humanas, refletindo uma preocupação crescente com o que se denominou de desenvolvimento sustentável.
Com essas grandes mobilizações nas questões ambientais, a bicicleta começa a ganhar mais adeptos, podendo-se dizer que ela é “transparente” ou “invisível” na circulação, não só por suas características físicas extremamente simples, mas também pelo baixo impacto que causa ao meio ambiente, pela ausência de ruídos e de emissão de gases poluentes.
Não por acaso, a Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu a bicicleta como o transporte ecologicamente mais sustentável do planeta. O conceito de transporte ambientalmente sustentável foi então definido como os transportes que não colocam em perigo a saúde pública ou os ecossistemas.

A ONU elegeu a bicicleta como o transporte ecologicamente mais sustentável do planeta

Incentivo à bike no Brasil

Incentivo ao uso das bikes: o governo brasileiro lançou o Programa Bicicleta Brasil (PBB)

O governo brasileiro já começa a se movimentar no sentido de incentivar mais o uso das bicicletas no país. Em agosto, depois da presidente Dilma Rousseff criar o programa Caminho da Escola, que prevê a doação de 100 mil bicicletas e capacetes para alunos de escolas públicas, o governo federal deu mais um importante passo para incentivar a cultura das bikes no país com a criação do projeto de lei Programa Bicicleta do Brasil (PBB), já aprovado pela Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara dos Deputados. Segundo a medida, 15% do valor arrecadado em multas de trânsito devem ser repassados para financiar o projeto em todos os municípios com mais de 20 mil habitantes.
As medidas que valorizam o uso da bicicleta, e que estão previstas no PBB, vão desde a criação de ciclovias, ciclofaixas e bicicletários até a realização de campanhas para divulgar os benefícios da magrela. A bicicleta é considerada hoje um dos principais modais de transporte sustentável do mundo e faz parte da cultura de milhares de cidades desenvolvidas e com baixo nível de poluição atmosférica – justamente por não emitir gases de efeito estufa, ser saudável e econômica.
Além do financiamento a partir das autuações, dotações orçamentárias de todos os níveis de governo e contribuições de organizações, pessoas físicas e jurídicas (nacionais e estrangeiras) também podem servir de fonte de recursos para que o Programa Bicicleta Brasil seja posto em prática.
Vale lembrar que, até então, o Brasil ainda não havia aprovado políticas efetivas de incentivo ao transporte não motorizado como esta, diferente de outros países na América Latina, como a Argentina, por exemplo. Por lá, os ‘hermanos’ já contam com uma complexa rede de ciclovias e um sistema eficiente de bicicletas públicas em Buenos Aires.

Japão: modelo a ser copiado

Japão é o terceiro país com maior número de bicicletas, apesar do tamanho

Apesar das campanhas de incentivo, o número de bicicletas circulando pelas ruas do Brasil é muito pequeno comparado aos países da Europa e Ásia.
No Japão, considerando o tamanho do país, a quantidade de bicicletas circulando pelas ruas é impressionante. Em qualquer ponto da cidade, vemos pessoas de todas as idades pedalando; crianças brincando, estudantes indo para a escola, senhoras idosas indo para o supermercado e pessoas indo para o trabalho, desde operários das indústrias até executivos engravatados.
Não existem ciclovias no país; motoristas, ciclistas e pedestres convivem harmoniosamente, respeitando seu espaço, cumprindo as normas do trânsito, trafegando lado a lado.
O Japão é o terceiro país com maior número de bicicletas, só perdendo para Estados Unidos e China, que têm populações bem maiores.
A topografia plana do país também ajuda o uso da bicicleta, as ruas são muito bem conservadas, sem buracos, obras ou obstáculos, o que torna o deslocamento bem fácil e tranquilo. Apesar do alto poder aquisitivo do povo japonês e das vias muito bem conservadas, o automóvel é usado com mais frequência nos fins de semana. Nos dias úteis, a bicicleta e os trens ou metrô são os meios de locomoção mais utilizados.
Resumindo, o que o Japão tem e o Brasil não é que o país do sol nascente dispõe de toda estrutura e condições (veja quadro) para o deslocamento urbano usando a bicicleta.

Algumas ações que promovem o uso da bicicleta no Japão
  • Nas estações de trem e metrô, os estacionamentos para bicicletas são enormes e estão sempre lotados, são milhares espalhadas em vários andares.
  • Nas universidades também existem grandes ares destinadas às bicicletas.
  • Em qualquer indústria, órgão público, comércio ou condomínio existe uma área reservada para estacionar as bicicletas.
  • Em questão de segurança, nas grandes avenidas com tráfego intenso de veículos, os ciclistas utilizam a passarela de pedestre, pois existe uma rampa junto aos degraus destinada especialmente aos ciclistas.

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Claudia Franco e sua paixão pelas bikes: competição internacional e criação do blog CicloFemini

A ciclista Claudia Franco começou no pedal há quase dois anos, quando foi convidada por um amigo a participar da competição internacional de mountain bike, o Tour da Patagônia, que é realizada entre a Patagônia Chilena e a Argentina e, desde então, não parou mais. Passado algum tempo, ela se deu conta do grande acervo de vídeos, fotos e relatos de pedaladas que possuía e, então, resolveu criar o blog CicloFemini, para dividir com outras pessoas as suas “experiências”.
Hoje, após ter entrado para o que chama de “planeta dos bikers” e já bem mais experiente, Claudia conta que passou a perceber dois nichos distintos de ciclistas: um deles é composto por aqueles que já pedalam há muito tempo e conhecem profundamente todas as informações que giram em torno da bicicleta; e outro é o dos novos adeptos ou daqueles que pedalam não mais que cinco vezes ao ano. Nesses grupos, dos novos adeptos e dos não frequentes, há muito desconhecimento a respeito de equipamentos, exercícios, tipos de bicicletas, entre outros itens.
Segundo ela, esse desconhecimento acaba criando uma série de mitos que dificultam a vida de quem está iniciando, de quem está retomando e desestimula aqueles que ainda estão pensando se devem ou não entrar neste “planeta”.
Por isso, Claudia, que se tornou uma profunda conhecedora do mundo das magrelas, procura também dividir com esse público menos informado um pouco do seu conhecimento, até como forma de incentivar pessoas que pretendam se aventurar no pedal.


Confira, a seguir, mitos e verdades, por Claudia Franco
Mito: Preço baixo e bicicleta boa
Verdade: Não existe bicicleta boa e baratinha. As bicicletas boas, além do quadro, têm na sua composição componentes de alta tecnologia que visam ao melhor desempenho, segurança e conforto do usuário. Lembre-se de que o custo de propriedade de uma bicicleta é muito baixo. O investimento inicial pode parecer alto, mas você vai usar este bem por muitos anos. Em uma conta muito básica, divida o preço da bicicleta por pelo menos cinco anos. Se você não ficar aficionado por bikes, é bem provável que passe a trocá-la após cinco anos ou mais.
Mito: Bicicleta baratinha para iniciantes
Verdade: É um grande equívoco pensar: “vou comprar uma bicicleta barata porque estou iniciando”. Pense o seguinte: Se está iniciando, não tem o preparo físico específico para o pedalar e desconhece as técnicas. Portanto, pelo menos um item tem que ser bom para você usufruir do pedal, ou seja, a bicicleta, para compensar a falta momentânea de desempenho. O seu preparo virá com o tempo e com a prática. A bicicleta ruim não tem como melhorar, sempre será ruim. A sua falta de conhecimento e despreparo físico, atrelada a uma bicicleta ruim, vai dificultar a avaliação do seu rendimento e do nível de sua pedalada. Consequentemente, você não saberá se a falta de rendimento é por conta do despreparo ou da bicicleta. O maior motivo de desistência dos iniciantes está relacionado a equipamentos inadequados.
Mito: Pedalar é desconfortável, dói
Verdade: Pedalar pode causar um pouco de dor somente nas primeiras vezes, principalmente nos ísquios, localizados na zona inferior da pélvis (quadril). Porém pedalar não dói e nem é desconfortável. Caso sinta dor ou desconforto, existem vários itens a serem observados, como, por exemplo: tamanho da bicicleta, ajuste da bicicleta ao seu corpo, roupas inadequadas, problemas esqueléticos ou musculares, entre outros.
Mito: Prática esportiva com a bicicleta é para atletas
Verdade: Muitas pessoas usam a bicicleta somente para o lazer, para passeios pela orla da praia, em parques ou ciclovias nos finais de semana. Imaginam que a prática do ciclismo ou do mountain biking é somente para atletas. As pessoas podem, e devem (recomendo) utilizar a bicicleta na modalidade esportiva. O uso da bicicleta na prática esportiva é muito divertido. Dá um novo objetivo ao uso da bicicleta em si. É um excelente recurso no processo de redução de peso e condicionamento físico. É um esporte que facilita o desenvolvimento de laços de amizade, principalmente no mountain biking, cujo grupo de participantes tem mais chances de conversar e interagir durante a pedalada pelas trilhas.
Mito: O mountain biking é um esporte de risco, exige demais dos praticantes em termos de esforço físico e técnica, é só para profissionais
Verdade: O termo mountain biking foi criado para definir a modalidade de ciclismo na qual o objetivo é transpor percursos com diversas irregularidades e obstáculos. Em alguns países a bicicleta de mountain biking é chamada de BTT, bicicleta para todo terreno, pois esse tipo de ciclismo é praticado em estradas de terra, trilhas de fazendas, trilhas em montanhas, dentro de parques e até na cidade. Apesar de ter como conceito básico a transposição de obstáculos, existem diversos níveis de prática de mountain biking. Há muitos passeios que são feitos por trilhas e estradas de terra batida, largas, sem buracos, com pouco ou quase nenhum aclive ou declive e distância curta. Portanto, fique tranquilo, mountain biking pode não ser radical, e sim uma grande diversão para quem quer estar em contato direto com a natureza.
Mito: Competição é só para profissionais
Verdade: A grande massa de contingente de uma competição é composta por amadores e alguns iniciantes. A participação para uma competição demanda um preparo mínimo, portanto lhe dará objetivo e motivação para praticar frequentemente o esporte.
Mito: Qualquer bicicleta serve
Verdade: Existem diversos tipos de bicicleta, uma para cada tipo de pedal. Há bicicletas de montanha (mountain biking); bicicletas de corrida/estrada, chamadas (speed); bicicletas de passeio/cicloturismo; e as bicicletas urbanas. Além do tipo, as bicicletas têm tamanho. Não ceda às adaptações. Muitos lojistas vendem o tamanho errado e dizem que com um pequeno ajuste a bicicleta ficará boa. Não é verdade. Inúmeras pessoas usam bicicletas muito pequenas ou muito grandes, totalmente incompatíveis com sua estatura. Ligue diretamente para o fabricante ou distribuidor e se informe. Só depois vá à loja com a informação do tamanho adequado à sua altura.
Mito: É difícil transportar a bicicleta
Verdade: Com um pouco de boa vontade e conhecimento, as coisas ficam mais fáceis. Atualmente, estão disponíveis nas lojas especializadas diversos tipos de suporte para transportar a bicicleta com conforto e segurança. Transportar a bicicleta dentro do carro é fácil e possível, basta saber como remover as rodas e o modo correto de colocar o quadro dentro do porta-malas. Ainda há a parte interna do carro, no vão entre os bancos dianteiros e traseiros – neste caso recomendo o uso do mala-bike de lona.
Mito: Estou gordo (a) para pedalar, preciso emagrecer para iniciar
Verdade: Essa é uma fala frequente das mulheres. Um dos grandes benefícios de pedalar é o emagrecimento. Para quem precisa emagrecer, o uso da bicicleta é um método prático, divertido e prazeroso, além de proporcionar um emagrecimento eficiente e saudável.
Mito: Estou velho (a) para começar a pedalar
Verdade: O ciclismo é uma prática esportiva democrática e abrangente. Qualquer pessoa pode pedalar, pois não exerce impacto nas articulações, e a pessoa estabelece o próprio ritmo de acordo com suas condições físicas e os objetivos do exercício em si. São raras as recomendações médicas contra a prática.

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(*) Coletivo Verde e CicloFemini