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Revista Mercado Edição 51 - maio 2012

Carne de cavalo “made in” Araguari

Por Amanda Célio Fotos: Douglas Luzz

O Frigorífico Prosperidad, em Araguari, ocupa uma área de 78 mil metros quadrados e processa em média mais de 80 mil quilos de carne de equídeos (cavalos, asnos e burros), a maior parte exportada para o mercado europeu

Cidade localizada no Triângulo Mineiro abriga o Frigorífico Prosperidad, o maior entre os dois únicos do Brasil voltados para o abate de equídeos. Quase 100% da produção da carne vai para o mercado externo. No mundo, apenas outros quatro países operam nesse tipo de negócio

O município de Araguari, situado na região do Triângulo Mineiro, no estado de Minas Gerais, abriga uma indústria que atua em um mercado bastante restrito: o abate de equídeos (cavalos, burros e jegues, entre outros) para fins, principalmente, de comercialização da carne. Para se ter ideia, nesse ramo de negócios, a empresa denominada Frigorífico Prosperidad S.A. é uma entre cinco em atividade em todo o mundo. Além do Prosperidad, empresas iguais somente na Argentina, Canadá, México e China. Outra particularidade do negócio é que a maior parte da sua produção, 99%, é exportada para outros países, principalmente da Europa. O restante fica no mercado interno, tendo em vista a falta de hábito do brasileiro em consumir carne de equídeos.
De acordo com a gerente do Prosperidad, Neiva Célio Araújo, o preconceito contra a carne de equídeos está relacionado a questões culturais e algumas lendas. “As pessoas têm uma visão de que o cavalo foi feito para o trabalho e também o associam como um grande amigo do homem do campo, por isso se assustam quando falamos em consumir a carne”, afirmou. Para ela, é um pensamento equivocado. “Os equídeos que vão para o abatedouro são animais comprados para esse fim. É importante frisar que eles não sofrem nenhum tipo de maus-tratos e abuso sob a tutela do frigorífico, pois são devidamente alimentados, tratados e inspecionados”, contou a gerente, ao explicar como é o processo desde a compra até o abate.

Neiva Araújo: “Os animais abatidos pelo Prosperidad são comprados para esse fim, não sofrem maus- tratos, exatamente igual ao abate de bovinos”

Além da carne produzida pelo Prosperidad, comercializada sob a marca Fava, existem ainda outros subprodutos provenientes do abate de equídeos – equinos, muares e asininos -, tais como pincéis (feitos dos pelos das crinas), ração para animais, vacinas opoterápicas, mortadelas e salsicharias.

“Carne produzida pelo Prosperidad é comercializada sob a marca Fava”

A contadora Cleonice Silvério experimentou a carne há um tempo e conta como foi a sensação. “Preparei o prato normalmente e servi no almoço para a família. Só depois que todos experimentaram a carne contei do que se tratava. Meus filhos acharam o sabor um pouco mais adocicado e forte, mas pensaram que eu tivesse errado a mão. No final, todos aprovaram a escolha”, completa a contadora.
No que diz respeito ao aproveitamento dos animais, quase todas as partes podem ser utilizadas de alguma forma: o sangue e os ossos são usados para a produção de farinha de ração, a crina, para fabricar pincéis. A indústria de salsicharias e mortadelas também usa para dar liga aos seus produtos. Finalmente, a indústria de vacinas também utiliza subprodutos dos equídeos para fins opoterápicos.
Semelhante aos cortes bovinos, a carne de equídeos tem cortes habituais, como alcatra, contrafilé, lagarto, macreuse (coração da paleta), filé mignon, maminha, patinho, peito e peixinho. Não há cupim e picanha, por causa da conformação do animal. Em relação ao seu valor nutricional, a nutricionista Daniela Serwy afirma que é uma carne nutritiva e que contém pouca gordura, e acredita que o motivo do baixo consumo no Brasil seja por questões culturais, falta de hábito e acesso difícil. “A carne de cavalo possui, em princípio, todas as qualidades das outras carnes comestíveis, como a de boi, peixe, frango etc. É rica em proteínas de primeira qualidade e vitaminas do complexo “B”. Entretanto, o teor de ferro na carne de cavalo é mais que o dobro do contido nos cortes bovinos, o que seria recomendável para atletas, crianças, grávidas e pessoas com anemia”, afirma a nutricionista.

Alcatra equina

Coxão Mole equino

Contra-filé equino

Produção

Em terras brasileiras, esse mercado está aberto apenas para exportação, visto que aqui se consome somente os subprodutos dos equídeos, somando 1% do uso. Os outros 99% são divididos entre Ásia, África do Sul e, principalmente, países da União Europeia, onde a carne é tradicionalmente conhecida e consumida. A grande diferença nos consumidores desse produto pode ser justificada pela cultura e tradição de no Brasil não se consumir essa carne. O tema envolve religião, afeto, preferências de paladar e falta de informação. Já a França e a Itália são exemplos de países com maior tradição, afinal, nos períodos que precederam as duas grandes guerras na Europa, a carne de equídeos era altamente consumida.

“99% da produção do frigorífico é exportada para outros países, especialmente da Europa”

O volume de exportações do Prosperidad em 2011 foi de quase mil toneladas de carne e meia tonelada de subprodutos (restos do cavalo que servem para dar ligas em mortadela, salsicharia etc.). A gerente, Neiva Araújo, julga esse número baixo em relação ao faturamento da empresa em anos anteriores e comparado a frigoríficos de carnes bovina e suína. “A crise econômica afetou todo o mercado de exportação, portanto nosso nicho não iria ficar de fora. Se antigamente exportávamos mil toneladas por mês, hoje estamos na média de 83 mil quilos/mês. Temos consciência de que com outros mercados do setor não foi diferente. No nosso caso, especificamente, a empresa ainda passou por um processo de reformulação e adequações, o que gera custos e despesas”, afirmou a gerente.
Entretanto, a gerente é otimista em relação à perspectiva de crescimento neste ano. “Estamos em negociações bem adiantadas com outros países. A previsão para este ano é de que tenhamos um aumento perto de 15%”, concluiu.
O Serviço de Inspeção Federal (SIF) é um dos órgãos responsáveis por inspecionar as normas de exportação. A equipe é composta por um veterinário federal, um municipal e um agente de inspeção.

Operacional

Como em qualquer outro frigorífico, o Prosperidad conta com vários departamentos regulamentados para preservar a qualidade do produto. José Donizeth Martins é o gerente industrial. Dentre as inúmeras funções do seu departamento, ele divide o tempo entre controlar e supervisionar as atividades na área industrial, ajudar no planejamento e controle de produção e na manutenção, além de dar suporte ao controle de qualidade e fabricação. “Supervisiono os planos de meta na produção, abate e desossa, visando à otimização dos produtos a serem trabalhados (carne de equídeo). Também está sob minha responsabilidade gerenciar a alocação de mão de obra no processo operacional e toda necessidade em relação à empresa no quesito de manutenção e instalações”, afirmou Martins.
Por outro lado, cabe a Eduardo Barbosa cuidar do processo de exportação da empresa. Segundo ele, apenas dois frigoríficos estão em funcionamento no Brasil e devidamente credenciados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Eduardo Barbosa diz que o Prosperidad é um grande exportador de carne de equídeos para o mercado europeu, mas nos últimos anos perdeu espaço para produtores como México, Argentina e Canadá por causa do câmbio

O Frigorífico Prosperidad, em Araguari (o de maior capacidade instalada), e o Foresta, no Rio Grande do Sul – este localizado na cidade de São Gabriel -, são os únicos remanescentes desse mercado que já contou com mais de sete frigoríficos em território nacional. Devido à demanda para as exportações serem em grande escala, os frigoríficos trabalham em parceria, uma vez que o Foresta é um frigorífico menor e não consegue abastecer a demanda sozinho, por isso conta com a ajuda do Prosperidad nas suas relações com o mercado externo.
“O Brasil já foi um grande exportador de carne para a União Europeia, Ásia e África do Sul, mas devido à baixa cambial do dólar nos últimos seis anos, perdemos espaço para o México, Argentina e Canadá. Sem falar na competitividade da carne de porco nos países asiáticos”, contou Barbosa.
Outra grande responsabilidade no Prosperidad fica a cargo de Edmar Martins. É dele a responsabilidade pelo departamento da Garantia da Qualidade, que atua em todas as etapas do processo, desde a recepção dos animais até a expedição da carne, miúdos e subprodutos, realizando monitoramento dos procedimentos operacionais para detectar, entre outras coisas, possíveis falhas de ordem sanitária que possam ocasionar contaminação do produto, avaliando a causa e determinando ações corretivas/preventivas junto à Gerência Industrial e demais colaboradores. “Realizamos também o controle de qualidade em laboratórios credenciados ao MAPA através de amostragens do produto, água e superfícies de contato, tais como instrumentos de trabalho (faca, chaira, gancho e bainha), mesas onde realizam o toalete das peças, Skinner / refiladeiras e outros, para garantia no fornecimento de um produto dentro dos padrões sanitários com excelência”, disse Martins. O frigorífico Prosperidad é o maior frigorífico em funcionamento e credenciado pelo MAPA no Brasil e o segundo maior da América Latina, perdendo apenas para a Argentina. Outro pequeno frigorífico está localizado no país, porém não atende a demanda da exportação e é abastecido pelo Triângulo Mineiro.

União Europeia é o maior mercado do frigorífico Prosperidad

Atualmente, o maior cliente do Frigorífico Prosperidad é a União Europeia, seguida da África do Sul e do Japão. A empresa também está em acordos comerciais bastante adiantados com a China e Rússia. Os principais fornecedores de animais para o Prosperidad estão concentrados nos estados de Goiás, São Paulo, Bahia e norte de Minas. Quem conduz a transação de compra e entrega dos animais é o comprador de cavalos Alaor Alves. Ele conta que são os próprios tropeiros que localizam, fazem o processo de escolha do animal e depois os vendem para a empresa. “Os tropeiros são trabalhadores autônomos que compram os animais de produtores rurais, normalmente lotes de 20 a 30 animais – e depois os vendem para o frigorífico. No ato da compra, o proprietário do animal recebe a garantia do abate assegurando que seu animal não será revendido posteriormente para outro fim”, explica Alves.
No processo de abate, são mobilizados cerca de 60 funcionários. Primeiramente é feita a pesagem do animal, depois são inspecionados pelos agentes do SIF e agentes de controle de qualidade e, em seguida, vão para o curral, onde são alimentados e descansam por entre 6 e 12 horas. O abate e a desossa acontecem na sequência e o processo é idêntico ao de bovinos, ou seja, sem causar nenhum sofrimento ao animal. Posteriormente, a carne é cuidadosamente separada por tipo de corte, embalada e exportada para vários países.
Em 2009, a União Europeia (UE) fez algumas exigências para os frigoríficos, já que a Europa é o maior consumidor do mercado de carne. O bloco passou a exigir rastreabilidade e mais controle dos medicamentos dados aos equinos nos seis meses antes do abate. Em maio do mesmo ano, foi aprovado por eles o plano de rastreabilidade e controle de medicamentos para as exportações de carne de cavalo apresentado pelo Brasil, que é o terceiro maior fornecedor de carne de equídeos para países do continente europeu, atrás apenas do Canadá e da Argentina. Com isso, o Brasil foi o primeiro a ter um plano aprovado pelo bloco. Com o acordo, não houve interrupção no fluxo de vendas da carne para o mercado comunitário. Depois dessa negociação com a Europa, a missão brasileira em Bruxelas afastou o risco de interrupção no fluxo de vendas de carne de cavalo brasileira para o mercado comunitário.
A aprovação europeia representa um importante avanço para o Brasil, já que a UE é o principal destino do produto nacional. As exportações recuaram 10% em 2009, em parte pelas restrições impostas pelo bloco. Em 2008, o Brasil exportou 8,5 mil toneladas de carne de cavalo para a UE; o Canadá, 13,7 mil toneladas; e a Argentina, 13,2 mil toneladas.

A equipe responsável pela administração do Prosperidad em Araguari (da esquerda para a direita): Eduardo Barbosa, departamento de exportação; Alaor Alves, comprador de animais; Neiva Araújo, gerente geral; Edmar Martins, responsável pelo departamento da garantia da qualidade; e José Donizeth Martins, gerente industrial

Fábrica de banha de porco se transformou em frigorífico

Foi em 1961 que o então comendador Erich Markus adequou a fábrica de banhas de porco para se tornar um promissor frigorífico de equídeos na região do Triângulo Mineiro, precisamente na cidade de Araguari. Em uma dessas rodadas de negócios, com o engenheiro Eduardo Rinzler, eles fecharam uma parceria que durou pouco tempo. O então frigorífico Avante foi vendido para Rinzler, que aos poucos o transformou no maior frigorífico de exportação de cavalos do país. Como em qualquer negócio, as mudanças foram primordiais para transformá-lo em uma referência do segmento em todo mundo. Para se ter uma ideia, em 2010 ele foi vendido para um grupo Uruguaio, passando a se chamar Prosperidad. A mudança proporcionou mais desenvolvimento para a empresa, além de novas adequações ao mercado, considerado promissor.

O Prosperidad S.A. é o maior e um dos dois únicos frigoríficos para abate de equídeos no Brasil credenciados junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa); no mundo, apenas outros quatro países praticam essa atividade

Está sob a responsabilidade da administradora de empresas Sandra Catharina Jorge, 52 anos, comandar os mais de 200 funcionários diretos e indiretos envolvidos nas funções de administração, gerência, inspeção, abate, desossa e exportação dos equinos, muares e asininos.
O processo de abate dos equídeos (que engloba as três classes dos animais) assemelha-se com o de bovinos e suínos. A diferença é que não há uma criação de cavalos específica para o abate, visto que são usados animais de descarte, ou seja, com idade média de 12 anos. Por causa da quantidade de hormônios e remédios aplicados, os animais utilizados em práticas desportivas são totalmente descartados do processo de abate, além de não pertencerem à classe de equídeos permitida para o consumo.
“O que muitas pessoas não sabem é que a carne de equídeo atua como regulador do mercado interno e presta serviços importantes à sociedade nas áreas sanitárias, de alimentação e de negócios”, ilustra a gerente do Prosperidad, Neiva Araújo.

Procedência dos cavalos é uma das melhores

A diretora geral do Prosperidad, Sandra Catharina Jorge, que cuida dos interesses gerais da empresa a partir de São Paulo, conta que as características do processo de introdução do cavalo no Brasil diferem das de outros países do continente americano. “Considero que a atual criação brasileira de cavalos é uma das melhores, além das vantagens competitivas frente aos principais polos internacionais de qualidade genética. O clima, a mão de obra e o espaço garantem ao país uma produção de animais de ponta a custos competitivos”, disse. O Brasil exporta animais vivos para diversos países nas Américas e Europa. E destaca-se no mercado internacional como exportador de carne de cavalo, perdendo unicamente para Canadá e Argentina.
Do lado econômico, o frigorífico influencia a cidade de Araguari de forma positiva. Quem conta essa história é o atual vice-prefeito da cidade, Júberson Santos. Ele foi funcionário da empresa durante 10 anos. “A contribuição do Prosperidad na economia de Araguari-MG é focada no âmbito social, pois são gerados 110 empregos diretos. É importante lembrar que é uma empresa de 50 anos de tradição e faz parte da história da cidade”, ressaltou Santos. Ele completa que acompanhou a trajetória do frigorífico de perto como funcionário e admirador do trabalho que é desenvolvido na empresa. “Temos consciência da importância do Prosperidad para a economia de Araguari”, finalizou.

Tabus e Curiosidades
No mercado de carnes, vários tabus ainda precisam ser quebrados. No Brasil, o consumo de carne de cavalo ainda não é muito bem visto. Porém, a rejeição se estende a outros países. Os EUA liberaram o consumo da carne apenas no fim do ano passado. O produto era proibido desde 2006.
Mesmo o Brasil sendo um pequeno consumidor da carne de equídeos, o país aparece bem colocado como exportador desse produto. Estamos em terceiro lugar no ranking de exportações, perdendo apenas para o Canadá, México e Argentina, que aparece em primeiro lugar como a maior potência desse segmento.
Cerca de 15 mil toneladas são exportadas por ano por via aérea e marítima, tendo uma receita média de US$ 35 milhões anuais. O quilo médio da carne custa R$ 25.
De Araguari, a carne parte para outros países, como Bélgica, Itália, Rússia, Suíça e Japão.
No oriente, a carne de cavalo é usada também para outro prato: um sashimi exótico, o basahi, que pode ser encontrado no país até como sabor de sorvete. O filé mignon também é usado como produto base para o sushi, inclusive atualmente no Japão, devido ao alto Preço do atum, alguns restaurantes têm usado a carne cavalo para este fim.
Em São Paulo, o maior centro urbano do país, apenas dois restaurantes servem pratos com carne de cavalo. Sauro Scarabotta, do Friccò, e Marcelo Pinheiro, do Tarsila, aderiram à experiência e têm uma alta demanda da carne.

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Tropa de qualidade
Na última pesquisa feita pelo IBGE, a tropa brasileira de equinos aparece como a segunda maior do mundo, com 5,6 milhões, ficando atrás apenas da China. Dentre as raças equinas criadas no Brasil atualmente, destacam-se os Marchadores, Mangalargas, Quartos de Milha, Árabes, Crioulos, Puro Sangue Ingleses, Puro Sangue Lusitanos e Brasileiros de Hipismo, e suas misturas. A tropa brasileira de asininos é composta amplamente pela raça nacional Pega e a Comum, outras raças estrangeiras são encontradas em menor quantidade.

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