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Revista Mercado Edição 48 - dezembro 2011

Cardiologista de Uberlândia participa de pesquisa mundial

Por Margareth Castro

Brasil é um dos 15 países que testa o stent bioabsorvível, dispositivo que promete facilitar a vida de pacientes com problemas cardiovasculares

A equipe liderada pelo cardiologista uberlandense Roberto Botelho. Da esquerda para a direita: Denis Souza (enfermeiro), Ana Cláudia (enfermeira), Samir Arab (médico), Jerusa (enfermeira), Michele (coordenadora de pesquisa), Martha Bezerra (enfermeira) e Laura (coordenadora); e agachados, Iara (enfermeira), Antônio Sena (médico), Vilmar Pereira (médico) e o próprio Roberto Botelho, um dos três médicos brasileiros participantes a liderar pesquisa para o desenvolvimento do stent bioabsorvível

Roberto Botelho já fora referência ao ser pioneiro no Brasil e na América Latina, quando, em 1999, consegui transmitir em tempo real uma angioplastia - cirurgia para desobstrução de uma artéria - para estudantes de Medicina e um grupo de médicos do Hospital de Clínicas da USP de Ribeirão Preto, em São Paulo, a 283 km de Uberlândia

O cardiologista e pesquisador Roberto Botelho, do Instituto do Coração do Triângulo (ICT), é um dos três médicos brasileiros a participar de uma pesquisa mundial de um novo dispositivo para tratamento de artérias coronárias com estreitamento causado por placas de gordura acumuladas. O stent bioabsorvível está em fase de testes em 15 países e traz a vantagem de ser absorvido pelo organismo em até dois anos e meio.
O médico já foi referência nacional ao colocar Uberlândia, no Triângulo Mineiro, no centro do mundo ao transmitir em tempo real, em 1999, uma angioplastia – cirurgia para desobstrução de uma artéria – para estudantes de Medicina a 283 km e um grupo de médicos do Hospital de Clínicas da USP de Ribeirão Preto, em São Paulo. O trabalho foi pioneiro na América Latina e entrou para a história do ensino superior brasileiro.
Roberto Botelho explica que foi um dos escolhidos por fazer parte da rede mundial de pesquisas, que estabelece a padronização de procedimentos médicos. Segundo ele, a pesquisa do absorb, como o stent absorvível é conhecido no meio médico, começou há 10 anos e envolveu várias áreas. A primeira publicação foi feita em 2008. “É um estudo revolucionário e complexo”, enfatizou.
Os principais mentores da pesquisa são holandeses. Na América Latina, quatro centros participam, sendo um em Buenos Aires, na Argentina, e outros três no Brasil: o Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo, o Hospital Albert Einstein, também em São Paulo, e o Instituto do Coração do Triângulo, em Uberlândia.
Para comprovar a eficácia do novo dispositivo e consolidar os resultados, estão previstos mil procedimentos cirúrgicos no mundo. Em Uberlândia serão 15, sendo que seis pacientes já estão com o absorb. A primeira cirurgia foi feita no dia 14 de novembro, em uma mulher de 57 anos, moradora de Uberlândia. Ela recebeu com sucesso o dispositivo e se recupera bem da intervenção. Até novembro, 341 pacientes em todo o mundo já haviam testado a nova tecnologia.

Coração com stent implantado: para a cirurgia, que dura entre 30 e 40 minutos, o paciente é internado num dia e recebe alta no outro. O método de implante é parecido com o dos stents convencionais

De acordo com Roberto Botelho, os pacientes da pesquisa são monitorados pela equipe e por auditores independentes. Ele explica que a participação no estudo obedece a critérios do protocolo, previamente definidos e publicados. “Os pacientes têm que ser maiores de 18 anos e não podem ter a artéria coronária com excesso de cálcio, muito curvada ou com diâmetro maior que 3 mm ou menor que 2,5 mm. Também precisam ter condições de vir ao centro onde realizou o procedimento a cada três meses para acompanhamento”, esclareceu.
Segundo o médico, a paciente de Uberlândia tinha uma obstrução na artéria coronária direita e estava sentido dores no peito. Os exames na fase de diagnóstico, concluído há cerca de um mês, mostraram falta de oxigenação na parede inferior do coração.
Para a cirurgia, que dura entre 30 e 40 minutos, o paciente é internado num dia e recebe alta no outro. O método de implante é parecido com o dos stents convencionais. O procedimento é minimamente invasivo e a anestesia, local. Roberto Botelho explica que não é feito nenhum corte, apenas um furo de agulha no pulso direito do paciente. A partir daí, um cateter com o dispositivo bioabsorvível segue até a artéria do coração a ser tratada. “Com o stent segue uma droga capaz de reduzir a ocorrência de inflamações e formações de coágulos no vaso sanguíneo”, disse. Ao fim da cirurgia, o paciente recebe um curativo compressivo no punho, com uma pulseira inflável que comprime a artéria por uma hora. “Não fica cicatriz nem qualquer outro tipo de marca”, salientou.
Nos procedimentos realizados, a equipe de pesquisadores mundiais ainda não registrou nenhum caso de rejeição ou formação de coágulo depois da intervenção para implantar o dispositivo bioabsorvível.
Com os resultados apresentados até agora, a Europa aprovou a comercialização do dispositivo. No Brasil, a pesquisa continua e a aprovação depende da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O cardiologista Roberto Botelho tem esperanças de que até 2013 o dispositivo seja aprovado no país. No entanto, ele acredita que o procedimento será mais caro do que o realizado atualmente, embora não saiba precisar quanto a mais. “Toda inovação é cara, porque oferece vantagens”, justificou.

Stent Bioabsorvível - O stent é uma espécie de mola implantada dentro da artéria do doente para liberar o fluxo de sangue, ou seja, é usado para desobstrução de artérias de pacientes com doenças cardiovasculares. A diferença é que o novo stent é feito de um material bioabsorvível, ou seja, é absorvido pelo organismo do paciente anos depois de sua implantação e da solução do problema cardíaco. Os stents usados até então eram feitos de metal e permaneciam na artéria do paciente

Novo dispositivo apresenta vantagens sobre o convencional

O stent bioabsorvível resolveu um dos inconvenientes do stent metálico, que era o fato de o vaso sanguíneo não recuperar sua função normal, uma vez que o implante permanecia para sempre no corpo do paciente. O cardiologista do Instituto do Coração do Triângulo, em Uberlândia, Roberto Botelho, explica que o resultado do stent convencional é espetacular, mas como a estrutura é rígida, a artéria perde sua motricidade natural e não consegue responder aos diferentes estímulos. “O bioabsorvível resolveu esse problema. O dispositivo é feito de ácido polilático, uma substância que faz parte do corpo humano e é facilmente absorvida pelo organismo”, disse.
A absorção é feita em um período de seis meses a dois anos e meio pelo organismo e, nesse tempo, as moléculas que formam o stent são transformadas em água e ácido lático e eliminadas pela urina. “O período que o implante permanece no coração é suficiente para devolver à artéria sua forma original e sua motricidade”, explicou o cardiologista.
Outra vantagem é que, com o implante do stent bioabsorvível, o paciente não precisa tomar remédio antiplaquetário, como ocorre com quem coloca o dispositivo metálico, que necessita usar medicação por, pelo menos, um ano. E ainda, facilita a vida daqueles que necessitam se submeter a algum procedimento não cardíaco depois da angioplastia. “O convencional acaba dificultando o trabalho dos médicos na hora de tratar um vaso que já recebeu o implante. Como o novo dispositivo é absorvido, o segundo procedimento pode ser realizado com mais facilidade. E a soma de tudo isso é que traz o beneficio”, conclui Roberto Botelho.

Novo dispositivo
Benefícios
- É feito de ácido polilático, substância que faz parte do corpo humano
- É eliminado do corpo entre seis meses a dois anos e meio
- O vaso sanguíneo volta a se mover com flexibilidade e a pulsar como se nunca tivesse adoecido
- Dispensa o uso de medicamento antiplaquetário após seis meses
- Facilita a realização de procedimentos não cardíacos depois da angioplastia
- O procedimento é minimamente invasivo e a anestesia é local
- O paciente interna no mesmo dia do procedimento e é liberado no dia seguinte
- O procedimento dura de 30 a 40 minutos e não deixa cicatriz
- Ainda não foram registrados casos de rejeição ou formação de coágulo após a intervenção
Contraindicações
- A artéria coronária não pode ter excesso de cálcio, ser muito curvada ou ter diâmetro maior que 3 mm ou menor que 2,5 mm
- O procedimento não é realizado em pacientes menores de 18 anos
Fonte: Roberto Botelho – cardiologista do ICT Uberlândia

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Uberlândia é referência em medicina cardiológica

Atualmente existem no mundo 54 linhas de pesquisa cardiovascular e, nos últimos três anos, o cardiologista e diretor do Instituto do Coração do Triângulo (ICT) em Uberlândia, Roberto Botelho, tem participado das principais publicações na literatura internacional da área. “Desde a década de 80, com a digitalização, a informação acontece muito rápido em todas as áreas de conhecimento e nessa linha de saúde, o ICT tem o privilégio de estar inserido em uma rede mundial de pesquisas”, explicou.
Na rede, os pesquisadores falam a mesma língua, pois a padronização dos procedimentos foi definida em uma Conferência Internacional de Harmonização, na qual vários países participaram, exceto da América Latina. Então, a forma de se tratar uma doença ou de pesquisar um novo medicamento ou a utilização de um equipamento é a mesma no mundo. Roberto Botelho diz que essa padronização é importante, pois “a maioria das pesquisas no mundo não servem para nada, pois está sem validade”, afirmou.
Há mais de 15 anos, o ICT faz parte dessa rede mundial e o início se deu a partir da instalação do Centro de Telemedicina, em 1996, pioneiro no país, que fez com que Uberlândia se tornasse conhecida e referência em cardiologia. Há um mês, o ICT foi o primeiro centro cardiovascular do Brasil a ser inspecionado pela Food and Drugs Administration (FDA). Representantes da FDA americana ficaram uma semana no Instituto para inspecionar e verificar se o que está sendo feito está correto. “Essa é a instituição mais séria e respeitada do mundo e nós tivemos o privilégio de ser auditados por ela”, elogiou.
O ICT conta com diversas pessoas treinadas e preparadas por Harvard para desenvolver pesquisas. Roberto Botelho explica que o Instituto é convidado a participar de estudos clínicos porque tem organização do padrão de qualidade, auditável, auditado e certificado, profissionais bem qualificados e ainda um volume de pacientes que permitem colher boas informações. “Somos hoje o centro que mais inclui pacientes adequados em programas de pesquisa e isso nos tem rendido vários prêmios. O mais recente foi o da pesquisa do stent bioabsorvível”, disse.

Histórico da Pesquisa
- A intervenção do dispositivo bioabsorvível, chamado absorb no meio médico, é considerada a quarta revolução no tratamento de doença arterial coronariana;
- A primeira foi em 1977. O alemão Andreas Gruentzig criou na cozinha de casa um pequeno balão para acoplar à ponta de um cateter. O balão era inflado com uma bomba de ar e, quando era colocado na artéria com entupimento, conseguia abri-la novamente;
- Em 1986 ocorreu a segunda revolução. O americano Richard Shcatz e o argentino Julio Palmaz tiveram a ideia de colocar uma mola de aço inoxidável em volta do balão. Era para dar estrutura à artéria, que costumava se retrair quando recebia apenas o balão. O primeiro procedimento no mundo foi no Instituto Dante Pazzeneze de Cardiologia, em São Paulo;
- O stent farmacológico, lançado em 2000, marcou a terceira etapa da revolução. Como se observou que o balão recolhia e a mola dava reação, o que fazia voltar o entupimento da artéria em seis meses, os especialistas resolveram colocar um medicamento antiquelóide, usado para impedir a rejeição de transplante, no novo dispositivo.
Fonte: O Globo

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