Saúde

Revista Mercado Edição 36 - novembro 2010

Brasileiros não sabem o que é AVC

POR Evaldo Pighini Com Agência Brasil

Especialistas alertam que a maioria da população não consegue identificar os sintomas de um Acidente Vascular Cerebral, o AVC; não sabe nem mesmo explicar o significado da sigla

Tudo transcorria bem na vida do bancário Alencar da Silva Fontana há cinco anos. Morador do Santa Mônica, bairro uberlandense, ele saiu de casa cedo para levar os filhos à escola e depois seguir para o trabalho, cumprindo sua rotina normal. No caminho, sentiu uma forte dor de cabeça, “como agulhadas”. Passou na farmácia, comprou e tomou um analgésico, que aliviou o sintoma. Chegando ao banco, onde trabalhava, sua colega de sala notou que havia algo estranho. A boca de Alencar estava repuxada para o lado. Alertado pela colega, ele insistia que tudo ia bem, mas ao tentar se levantar para ir ao arquivo, uma das pernas cedeu e ele caiu. O socorro foi rápido e, em menos de dez minutos já estava no pronto socorro de um hospital vizinho. Felizmente, Alencar se salvou, mas ficaram sequelas do AVC, do qual ele foi vítima. Desde então, Alencar faz fisioterapia três vezes por semana e leva uma vida normal, apenas com certa limitação do uso de membros do lado esquerdo do corpo: braço e perna.
Esse é um caso fictício, mas a ocorrência é bastante comum, infelizmente. Para o personagem Alencar, valeu a agilidade no atendimento, que ajudou a preservar a sua vida.
Atualmente, a cada cinco minutos, um brasileiro morre por causa de um acidente vascular cerebral (AVC), segundo dados da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), com base em informações do Ministério da Saúde. São quase 100 mil mortes por ano no Brasil. Para complicar a situação, especialistas alertam que a maioria dos brasileiros desconhece os sintomas da doença e não procura o médico.

O então deputado Clodovil Hernandes foi mais uma das tantas vítimas de AVC. Ele morreu em março de 2009. Clodovil, que sofria de hipertensão arterial sistêmica, antes já havia, em junho de 2007, sofrido um outro AVC, só que de menor intensidade, que resultou na paralisia parcial do braço direito

Na maioria dos casos, o AVC, popularmente chamado de derrame, é causado pelo entupimento de uma artéria cerebral por um coágulo, impedindo o sangue de chegar a outras áreas do cérebro. “As pessoas esperam para ver se vão melhorar e não procuram a emergência”, alerta a integrante do Departamento de Doenças Cerebrovasculares da ABN, Sheila Martins.
Em 2008, uma pesquisa do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), perguntou a 800 pessoas nas ruas das cidades de Ribeirão Preto, São Paulo, Salvador e Fortaleza quais os sintomas do AVC. Somente 15,6% dos entrevistados sabiam o significado da sigla. Ainda segundo a pesquisa, a maioria dos entrevistados confundiu a doença com paralisia, congestão, trombose ou nervosismo. Os sintomas de um AVC são fraqueza ou dormência súbita em um lado do corpo, dificuldade para falar, entender ou enxergar, tontura repentina e dor de cabeça muito forte sem motivo aparente.

O AVC pode estar a caminho…
Observe alguns sinais de alerta e aprenda a identificar o desenvolvimento da doença.
…há formigamento, fraqueza ou paralizia da face, braço ou perna, especialmente de um lado do corpo;
…você sente dificuldade para falar ou entender instruções simples;
…aparece uma dor de cabeça de início súbita, caracterizada como “a pior da sua vida”
…ocorre perda súbita da visão ou diminuição da acuidade visual de um ou ambos os olhos;
…há perda do equilíbrio ou da coordenação motora, combinada com uns dos outros sintomas descritos.

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Para o neurologista e coordenador da pesquisa, Octávio Marques Pontes, o brasileiro não encara o AVC como uma doença que necessita de imediato atendimento médico, porque acha que não existe tratamento. “A doença está presente na vida das pessoas, mas a maioria vê como sem tratamento”, disse. Pontes informou que, desde 2001, está disponível na rede pública e privada o tratamento trombolítico, que consiste na aplicação de remédios para desobstruir a artéria e restabelecer o fluxo sanguíneo, considerado o método mais eficaz.
A recomendação é que o paciente inicie o tratamento cinco horas após o aparecimento dos primeiros sintomas. O atendimento rápido aumenta em 30% as chances de sobrevivência, segundo Pontes. Um levantamento da Associção Internacional de AVC (ISS, em inglês) constatou que 15% dos pacientes que tiveram um acidente vascular cerebral podem morrer ou sofrer novo problema no prazo de um ano.
Os especialistas alertam ainda que é possível prevenir o acidente vascular, desde que sejam adotados cuidados no decorrer da vida – entre eles praticar exercícios físicos, ter alimentação saudável e evitar o fumo e o consumo de álcool, além de ficar em alerta com as taxas de colesterol e a pressão. A doença incide na população com mais de 65 anos, mas pode ocorrer em jovens e até em recém-nascidos.

Tipos de derrame

Além da prevenção, os médicos apontam a necessidade de ampliar a rede com tratamento específico para o AVC. Atualmente, 62 hospitais públicos e privados oferecem o tratamento adequado, contra 35 em 2008, segundo a neurologista Sheila Martins.  “Temos ainda muito a fazer”, alertou.
Em um ranking nacional feito pela neurologista, o Rio Grande do Sul aparece com a maior taxa de mortalidade por AVC no país – 75 mortes por 100 mil habitantes. Em segundo lugar está o Rio de Janeiro, com 68 mortes por 100 mil habitantes, seguido pelo Piauí, por Pernambuco e pelo Paraná. O cálculo é baseado em estatísticas do Ministério da Saúde de 2007.
A Organização Mundial de AVC estima que uma em cada seis pessoas no mundo terá um acidente vascular cerebral na vida.