Agricultura

Revista Mercado Edição 39 - fevereiro 2011

Agricultura é aliada na redução de gases estufa

DA Redação com Sophia Gebrim

Projeto da FAO avaliará o potencial da atividade na mitigação dos efeitos climáticos. Brasil contribui com incentivos a técnicas que equilibram produção e conservação ambiental

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) trabalha na produção de um banco de dados mundial com informações sobre a emissão de gases de efeito estufa lançados pela agricultura e seu potencial para minimizar o aquecimento global. O Brasil já está fazendo a sua parte ao incentivar o uso de tecnologias que reúnem eficiência produtiva e conservação ambiental. O programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), lançado em 2010, permite que o produtor rural tenha acesso a financiamento a um custo baixo (5,5% de juros anuais) para investir em práticas como recuperação de pastagens e plantio direto, que ampliam a produtividade da lavoura e, ao mesmo tempo, reduzem a emissão dos gases estufa.
“A nova agricultura colocada em prática está voltada para diminuir a quantidade de gases poluentes e tem como consequência um clima menos quente no mundo”, destaca o coordenador da Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura, Derli Dossa. A atuação do Brasil está alinhada com o Projeto de Mitigação das Mudanças Climáticas na Agricultura (Mitigation of Climate Change in Agriculture – MICCA), da FAO. O organismo da ONU utilizará os dados sobre as emissões para revertê-los em oportunidades de amenizar o aquecimento global por meio de técnicas agrícolas adequadas a essa realidade.

Derli Dossa: “A nova agricultura colocada em prática está voltada para diminuir a quantidade de gases poluentes e tem como consequência um clima menos quente no mundo”

No início da semana, a FAO divulgou que o Projeto MICCA receberá apoio de US$ 5 milhões dos governos da Noruega e Alemanha. O objetivo do projeto é tornar pública a quantidade das emissões de todos os países do mundo, facilitando o acesso às informações por representantes governamentais e agricultores. A FAO também usará as informações como ferramenta na operação de linhas de financiamento internacionais para projetos de mitigação e redução das emissões provenientes da agricultura e de aumento da quantidade de carbono sequestrado nas explorações agrícolas.

Experiência brasileira

O Brasil ocupa posição estratégica no combate ao aquecimento global. “A aposta em projetos sustentáveis na área da agricultura e pecuária, como o programa ABC, posicionou o Brasil entre os países mais adiantados no alcance das metas firmadas na 15ª Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP 15)”, explica Derli Dossa.
O ABC é uma das principais ações adotadas pelo Ministério da Agricultura para reduzir a emissão de gases de efeito estufa. O programa oferece R$ 2 bilhões em financiamento a produtores rurais e promove estudos e pesquisas por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Apoia a capacitação profissional para facilitar a difusão de práticas como plantio direto na palha, fixação biológica de nitrogênio, recuperação de pastagens degradadas e o sistema Integração Lavoura-Pecuária-Florestas (ILPF), que contribuem para a preservação das áreas de produção.

Sistema Integração Lavoura-Pecuária-Florestas (ILPF), que contribui para a preservação das áreas de produção, tem apoio financeiro e tecnológico do MAPA

O programa destina-se aos produtores rurais de todos os biomas brasileiros. Nos próximos dez anos, tem como meta deixar de emitir 165 milhões de toneladas equivalentes de CO2.

Ações do programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC)

Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) – O programa Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) está no foco da chamada “agricultura verde”. O sistema combina atividades agrícolas, florestais e pecuárias, promovendo a recuperação de pastagens em degradação. De acordo com o Ministério da Agricultura, a área utilizada nesse sistema pode ser aumentada em quatro milhões de hectares nos próximos dez anos. A previsão é que o volume de toneladas de dióxido de carbono (CO2) diminua entre 18 milhões e 22 milhões no período.
Recuperação de pastagens degradadas – Com o incentivo do programa ABC, a meta do governo é ampliar, nos próximos dez anos, a área atual de pastagens recuperadas de 40 milhões para 55 milhões de hectares. O maior uso da tecnologia vai proporcionar, no período, a redução da emissão de 83 milhões a 104 milhões de toneladas equivalentes dos gases de efeito estufa. A recuperação de terras degradadas é uma técnica que funciona há mais de 20 anos e pode ser aplicada em qualquer bioma brasileiro. É considerada fundamental porque representa a permanência do produtor na atividade e garante a conservação dos ecossistemas.

O plantio direto é uma das ações previstas no programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), lançado em 2010, que permite ao produtor rural acesso a financiamento a um custo baixo (5,5% de juros anuais)

Plantio direto – No uso do plantio direto, estima-se a ampliação da área atual em oito milhões de hectares, de 25 milhões para 33 milhões de hectares nos próximos dez anos. Esse acréscimo vai permitir a redução da emissão de 16 milhões a 20 milhões de toneladas de CO2 equivalentes. Além de promover o sequestro de dióxido de carbono da atmosfera, o plantio direto é exemplo de agricultura conservacionista, mantendo a qualidade dos recursos naturais, como água e solo.
Plantio de florestas – O plantio de florestas comerciais, como eucalipto e pinus, aumenta o sequestro de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. A intenção do governo é aumentar a área de florestas, até 2020, de seis milhões de hectares para nove milhões de hectares. Isso permitirá a redução da emissão de oito milhões a dez milhões de toneladas de CO2 equivalentes num período de dez anos.
Fixação biológica de nitrogênio – Apesar de o produtor rural utilizar a adubação mineral para o fornecimento de nitrogênio às culturas agrícolas, esse material costuma ser caro e seu uso inadequado pode produzir impactos ambientais negativos. A técnica de fixação biológica de nitrogênio tem como base o uso de plantas leguminosas, associado à cultura comercial, que podem suprir a necessidade de minerais necessários como adubação. As bactérias fixadoras de nitrogênio nas raízes dessas leguminosas também atuam no interior de plantas, como a cana-de-açúcar, cereais e gramíneas forrageiras. Outra alternativa para o agricultor é o uso de adubos verdes antes do cultivo da cana-de-açúcar no momento da reforma do canavial.