Matéria de Capa

Revista Mercado Edição 50 - abril 2012

A papisa da moda – e dos negócios

Por Margareth Castro

Em alta: a estilista Patrícia Bonaldi está presente com sua marca em mais de 20 países

De Uberlândia para o mundo: a trajetória de Patrícia Bonaldi, estilista que virou empresária e hoje tem sua marca presente em cerca de 140 pontos de vendas espalhados pelo Brasil e mais de 20 países, como França, Estados Unidos, Espanha, Inglaterra, Emirados Árabes e Rússia

Tecidos de qualidade, linhas, agulhas, tesoura e muita inspiração para criar peças exclusivas ou sob medida para clientes exigentes e de bom gosto. Assim é a alta costura, que em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, tem como referências as estilistas Patrícia Bonaldi, com a marca de mesmo nome, Denise Afonso, dona da Greta Cauê, e Fabiana Milazzo, também com loja de mesmo nome. Pautadas em diferentes estilos, as três se especializaram em moda feminina e garantem que não se incomodam com a concorrência, pois têm públicos distintos e mercado para todos.
Mas, assim como a moda é sazonal, quem vive o auge do sucesso e com produções usadas até por artistas globais é Patrícia Bonaldi, a estilista que virou empresária após começar o negócio como uma pequena marca feminina de vestidos para casamentos e eventos. Hoje, com lojas próprias em Uberlândia e em São Paulo, tem mais de 140 pontos de vendas espalhados pelo Brasil e outros 50 em 20 países, como França, Estados Unidos, Espanha, Reino Unido, Emirados Árabes e Rússia. Desde o mês passado, as peças da coleção de verão estão à venda na multimarcas de luxo inglesa Harrods. A empresa emprega 95 funcionários diretos e mais 300 indiretos.
Na loja em Uberlândia, a estilista criou uma escola de bordadeiras, que faz a capacitação das mulheres que integram a sua equipe. Elas desenvolvem a expertise da tradição mineira no trabalho manual, rico em bordados feitos à mão. Texturas incomuns tornam o portfólio da marca ainda mais refinado e delicado – as peças fascinam pelos detalhes e contribuem para o sucesso da grife em feiras do segmento festa.

Patrícia Bonaldi se destaca por sua habilidade em combinar tecidos de qualidade, detalhes luminosos, originalidade e sofisticação

O trabalho de Patrícia Bonaldi começou há 9 anos e vem conquistando o mercado nacional e internacional. A estilista se destaca por sua habilidade em combinar tecidos de qualidade, detalhes luminosos, originalidade e sofisticação em vestidos de festa. Os vestidos e acessórios da marca unem sensualidade a elementos românticos, destacando-se pelo uso de ornamentos nas criações como paetês, rendas e pérolas. A modelagem apurada e o acabamento primoroso de peças trabalhadas em seda pura, organza de seda, tule e tafetá também são características das criações de Patrícia Bonaldi.
A inspiração para criar as peças cobiçadas por artistas e mulheres de bom gosto surge a partir das experiências adquiridas durante as viagens nacionais e internacionais. Patrícia Bonaldi participa das feiras de moda do país e do exterior. A criação de uma coleção pode variar de seis meses a um ano, desde a pesquisa até o lançamento das peças no mercado. Segundo a estilista, é um período de muito trabalho. “No nosso caso, em média, o tempo é subdivido em seis meses para pesquisa, três para produção dos protótipos, dois para lançamento e comercialização para revendedores, três meses para industrialização e de três a cinco meses para a revenda”, detalhou.
Para Patrícia Bonaldi, ver suas peças sendo usadas por artistas e famosos é o fruto do reconhecimento de um trabalho que vem sendo feito e aprimorado ao longo dos anos. “Fico contente com a repercussão que alcançamos”, disse. Ela conta ainda que com a divulgação e notoriedade que a marca vem alcançando, tem recebido vários contatos de celebridades, stylists e produtores de moda. “Vou citar como exemplo o caso de uma conhecida cantora mexicana que conheceu a marca através de um blog e entrou em contato conosco.”

O começo de tudo

A marca Patrícia Bonaldi tem nove anos, mas despontou nos últimos dois. Logo após voltar do Japão, onde morou um período com o marido, Patrícia Bonaldi abriu uma loja multimarcas de roupas para festa. Ela conta que ao atender as clientes, ouviu muitas opiniões e reclamações das mulheres que procuram por modelos pouco convencionais no mercado. “Percebi um espaço no mercado e decidi criar minha própria marca, com modelos que atendessem as necessidades mencionadas pelas clientes”, disse. Assim, em 2003, a empresária e estilista abriu a loja Patrícia Bonaldi em Uberlândia, que hoje fica na rua Goiás, no Centro. “Sempre me interessei por moda, porém, nunca pensei nela como profissão”, revelou a estilista.

O estrelato não fez Patrícia perder sua originalidade: “Sempre me interessei por moda, porém, nunca pensei nela como profissão”

Como todo negócio, o objetivo é crescer. Por isso, Patrícia Bonaldi investiu na abertura de sua primeira loja na capital paulista em novembro do ano passado. Em um endereço requintado, na Rua Bela Cintra, nos Jardins, e em um espaço de 210 m², a loja tem uma linha contemporânea, com traços simples e uso de cores neutras, espelhos e inox.
Sem perder a identidade sofisticada e original, Patrícia Bonaldi lançou no início deste ano uma nova marca, a Pat Bo, com peças mais casuais, com perfil mais jovem e fashion. A primeira coleção conta com a expertise das blogueiras Camila Coutinho, Thássia Naves e Lalá Noleto, que inspiraram a criação das peças ao lado de Patrícia Bonaldi. Depois de viagens ao exterior, elas definiram a abordagem da marca para o que seria tendência na estação e com o tema da coleção “luxo global”, a estilista criou looks urbanos para vestir a mulher moderna de hoje.
Em tecidos como veludo, couro, renda, seda, chamois/suede, as peças são apresentadas nas cores dourado, preto, ocre caramelizado, âmbar e gloss vermelho, que contrastam com preto-laqueado, marrom-bronze, além de nuances metálicas, resultando numa harmonia elegante e em glamour.

Greta Cauê – De confecção a maison

A estilista Denise Afonso, leia-se Greta Cauê, foi uma das responsáveis por abrir as portas da alta costura para a indústria da moda de Uberlândia

A estilista e empresária Denise Afonso de Oliveira cresceu vendo as avós costurando e no meio dos tecidos, na loja de seu avô. Na adolescência, entre os 13 e 14 anos, mandava fazer suas roupas e, com isso, garantia a exclusividade dos modelos. A paixão por moda era tão grande que queria fazer um curso na área, mas como em Uberlândia não tinha faculdade de moda, acabou fazendo Decoração. Depois, foi embora para a Itália, onde ficou por quase um ano e especializou-se em moda.
Na Itália tinha a companhia da amiga Fabiana Milazzo, de quem foi sócia em uma confecção. Denise Afonso conta que aprendeu corte na prática, porque tinha muita ideia e queria transformá-las em peças. Entre 1993 e 1994 lançou a marca Greta Cauê, com fábrica na Rua Itumbiara, no bairro Aparecida, região central de Uberlândia. As peças confeccionadas eram vendidas no atacado. Mas Denise Afonso tinha um objetivo, e em 2000 conseguiu concretizá-lo, ao inaugurar a Maison, que funciona na avenida Rondon Pacheco, junto com a fábrica. “Deixei de ser uma confecção para ser um atelier de alta costura. Com isso, passei a trabalhar no varejo, com um investimento maior a partir de 2007. Hoje, trabalho com roupas personalizadas, sob medida, exclusivas”, contou.

“Mão de obra qualificada está difícil e eu primo pela qualidade das peças, por isso acompanho toda a produção”

(Denise Afonso)

A produção é em média de 80 peças por mês, mas na Maison também tem peças terceirizadas. Denise Afonso conta que no início trabalhava com 60% da coleção em esporte fino e 40% festa. Hoje, 80% é roupa de festa e 20% esporte fino, o que exige ainda mais dedicação e acompanhamento. “Linha de festa exige exclusividade e eu gosto de acompanhar toda a produção”, afirmou.
Para se aprimorar, a estilista fez cursos no exterior em alta costura e quatro vezes ao ano viaja para fazer pesquisas em moda. “Trago peças para desmanchar e aprender como foram feitas, ver os detalhes, aprender modelagem e acabamento. Também trago aviamentos do exterior, porque enriquecem minha produção”, revelou.
Denise Afonso diz que já recebeu várias propostas para vender para o exterior, mas ainda não aceitou porque teria que aumentar sua produção, coisa que ela não quer fazer no momento. “Mão de obra qualificada está difícil e eu primo pela qualidade das peças, por isso, acompanho toda a produção”, enfatizou.

Fabiana Milazzo – Vestido da marca é capa da Vogue Brasil

A badalada estilista uberlandense Fabiana Milazzo foi capa com suas criações da Vogue Brasil, a revista de moda mais conceituada do mundo

Em janeiro deste ano, uma das criações da estilista e empresária Fabiana Milazzo foi capa da Vogue Brasil -revista feminina de moda mais conceituada que existe, publicada pela Conde Nast Publications desde 1892 -, o que para ela foi considerado uma conquista importante para a alta costura mineira. “É bom ver o seu trabalho valorizado, principalmente em uma das revistas mais conceituadas no mundo da moda”, disse. Mas Fabiana Milazzo já está acostumada a ver suas peças exibidas em rede nacional. Ela já teve roupas em várias novelas globais, como Passione e Insensato Coração, e já fez parte de editoriais de moda das revistas Elle e Cláudia. Para ela, esse destaque é natural para quem trabalha no atacado e participa das feiras de moda. “A partir do momento em que se está fora e o trabalho é bem feito, ele aparece”, ressaltou.
Para chegar até esse ponto, Fabiana Milazzo trabalhou e ainda trabalha muito. Apaixonada por moda desde os 6 anos, quando passou a desenhar as próprias roupas até ser dona de uma Maison, foram anos de estudos e dedicação. Aos 18 anos, montou confecção com a amiga Denise Afonso. Depois, foi fazer curso de moda e modelagem na Itália, onde morou por quatro anos e também se casou. Em 2000, ao voltar para o Brasil, reabriu uma confecção com marca própria e há 10 anos construiu sua maison na avenida Rondon Pacheco.

“Não tinha intenção de fazer atacado, mas é algo que agora está crescendo e hoje atendo quase todos os estados”

(Fabiana Milazzo)

Até um ano e meio atrás, a produção era voltada para o varejo. Hoje, a marca Fabiana Milazzo é comercializada no atacado. No Brasil, distribui para 77 lojas. “Não tinha intenção de fazer atacado, mas é algo que agora está crescendo e hoje atendo quase todos os estados”, contou.
A estilista diz que a mudança ocorreu depois de participar de uma edição da Minas Trend Preview, em Belo Horizonte, a convite do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Uberlândia (Sindivestu). “O Sindicato podia levar três marcas da cidade para participar gratuitamente em seu estande e isso foi o começo de tudo”, relembrou. Depois dessa primeira experiência, Fabiana Milazzo voltou a participar da feira em um estande próprio e também participa de outras feiras pelo país, como a Fashion Business, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Para atender a demanda, vender e entregar as peças sem comprometer a qualidade do produto, Fabiana Milazzo decidiu formar a própria equipe e está com vagas abertas para costureiras e bordadeiras. A estrutura física também será ampliada e a empresária já investiu em maquinários e tecnologia, como o programa Audaces, que tem precisão e não desperdiça tecido.
Hoje, a equipe interna é formada por 25 pessoas, mas tem os prestadores de serviços, como bordadeiras e facção. A produção atual é de aproximadamente 800 peças/mês e se divide em casual chic e alfaiataria. Fabiana Milazzo já está trabalhando na coleção Verão 2013, já que em janeiro lançou a segunda etapa da coleção Inverno 2012, que tem como tema “Minha Toscana”. Ela conta que o tempo de criação de uma coleção é de aproximadamente seis meses e que sempre se inspira em um tema e cria a partir dele, inclusive as estampas, que são exclusivas. “Tenho uma identificação com o estilo italiano”, disse.

As top três falam do mercado

Fabiana Milazzo reclama da falta de cursos técnicos, porque, segundo diz, a moda é dinâmica e é preciso reciclagem

A indústria de moda no Brasil ainda está em crescimento e necessita de mais profissionalização em vários setores. Para as estilistas de alta costura em Uberlândia, a maior dificuldade hoje está em obter mão de obra especializada, principalmente nas áreas comercial, de modelagem, costura e produção. Para Fabiana Milazzo, o mercado de alta costura é bom, mas pode melhorar. Segundo ela, faltam cursos técnicos, porque a moda é dinâmica, precisa se reciclar.

A estilista acredita que uma oportunidade para melhorar o mercado é investir na formação de mão de obra e também na faculdade de moda, onde é possível descobrir novos talentos. “O meu braço direito, Letícia, é formada há dois anos e trabalha na criação e desenvolvimento de produtos junto comigo”, contou.

Patrícia Bonaldi acredita que a habilidade específica acaba predominando sobre a formação técnica

Já Patrícia Bonaldi acredita que a moda faz parte de um rol de profissões que exige habilidade específica, combinada com a formação técnica. “Vejo que a habilidade específica acaba tendo mais peso que a formação técnica, que apesar de importante, sozinha não garante o êxito na profissão”, disse. Segundo a estilista, a formação em moda oferece um leque amplo de profissões. “Existem hoje segmentações de profissões dento da moda que formam pessoas para diversas áreas dentro desse mercado”, disse.

Denize Afonso crítica os cursos superiores oferecidos em Uberlândia que, segundo ela, carecem de melhor estrutura acadêmica

Denise Afonso diz que os cursos superiores oferecidos na cidade ainda precisam melhorar sua estrutura acadêmica, mas acredita que das faculdades podem sair grandes talentos, porque o desempenho depende do aluno.
Para aqueles que sonham com o glamour do mundo da moda e estão em busca desse ideal, Patrícia Bonaldi dá um conselho. Para ela, o primeiro passo é saber com que áreas a pessoa possui afinidade (design, gestão, marketing, compras, estilo, produção) para que possa se dedicar e aperfeiçoar essas habilidades. “O caminho é mais fácil quando você gosta do que faz e conhece suas habilidades”, concluiu.