Ciência

Revista Mercado Edição 49 - março 2012

‘Laboratório vivo’, oásis mexicano corre o risco de desaparecer

Da Redação (*) - Fotos: Divulgação

Um raro ecossistema de zonas úmidas no deserto de Chihuahuan, no norte do México, e que pode conter informações chave sobre as origens da vida na Terra – até mesmo sobre a possibilidade de vida em Marte -, corre sério perigo de desaparecer caso sua água continue a ser extraída para o agronegócio. Com 200 km de extensão, o Vale de Cuatrociénegas – “vale dos quatro pântanos” -, localizado a 1 mil km ao norte da Cidade do México, é um complexo sistema de zonas úmidas ancestrais, com nascentes ricas em minerais, córregos, lagos, pântanos e piscinas de água azul turquesa, conhecidas como “pozas”. É alimentado por canais subterrâneos naturais e cercado por uma cadeia de montanhas com picos que ultrapassam 3 mil metros de altura.

A cientista Valeria Souza, pesquisadora da UNAM

“Essa é a nossa única janela para entender o passado do planeta, porque a vida emergiu aqui, e nós não estamos cuidando dela como deveríamos”, disse à IPS Valeria Souza, uma pesquisadora do instituto de ecologia da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). “Em vez de tentar entender como o ecossistema funciona, as autoridades têm se dedicado a explorá-lo e a extrair o máximo que podem, em troca de nada”, queixou-se ela.
Souza, que recebeu inúmeros prêmios ambientais, estuda a área desde 2000, ao lado de outros cientistas do México e do exterior.
A extraordinária biodiversidade e o número de espécies endêmicas em Cuatrociénegas tornam o seu ecossistema tão singular quanto o das Ilhas Galápagos, no Equador. A bacia, declarada área natural protegida em 1994, abrange 84,350 hectares, e é lar para mais de 70 espécies endêmicas – o que significa que elas não podem ser encontradas em nenhum outro lugar do planeta – incluindo a única tartaruga-de-caixa aquática no mundo e várias espécies de peixes tropicais.
“Muita água é removida e transportada para outros vales para o cultivo de alfafa, o que requer uma grande quantidade de água”, afirmou Francisco Valdés, ambientalista e professor do Instituto Tecnológico de La Laguna, na cidade de Torreón, próximo à reserva natural. “Desde 2000, nós temos tido vários anos chuvosos e os aquíferos foram reabastecidos, e a água estava correndo nos canais subterrâneos. Mas este ano tem sido muito seco”, contou.

Algumas espécies endêmicas, incluindo a tartaruga-de-caixa, só podem ser encontradas em Cuatrociénegas e em mais nenhum outro lugar do planeta

A Comissão Nacional para o Conhecimento e Uso da Biodiversidade diz que o vale está sob ameaça devido à crescente extração da superfície e da água subterrânea para irrigação, à transformação de habitats, à dispersão de espécies exóticas, ao pastoreio, ao corte de árvores para lenha, à coleta ilegal de cactos, à caça de répteis, à exploração de pedra de gesso e ao turismo irregular. Especialistas acusam também a indústria local de laticínios e os produtores de alfafa – usada como alimento de animais – de esgotar os recursos hídricos de Cuatrociénegas.
Cerca de 500 mil cabeças de gado na área produzem sete milhões de litros de leite por dia para o mercado doméstico e para exportação. No México, são necessários aproximadamente 2.500 litros de água para produzir um litro de leite, de acordo com a “Trilha da Água das Nações”, um relatório da UNESCO-IHE Instituto de Educação sobre a Água.
Autoridade nos recursos hídricos mexicanos, Conagua diz que existem nove aquíferos na região, todos superexplorados, que fornecem 1.23 bilhões de metros cúbicos de água por ano, enquanto eles são reabastecidos somente com 868 milhões de metros cúbicos por ano. Cuatrociénegas é uma das 55 zonas úmidas prioritárias no México sob a Convenção de Ramsar, acordo intergovernamental de conservação e uso racional dessas áreas e de seus recursos, vigente desde 1975.
O esgotamento da “poza” de Churince, o mais antigo lago do ecossistema, é um mau presságio para a reserva, alerta Evan Carson, um biólogo da Universidade do Novo México, nos Estados Unidos. Após suas duas últimas visitas, em março e maio, Carson, que estuda o ecossistema desde 1998, reportou em uma pesquisa (“Churince System Status aquatic fauna” (“O estado do sistema de Churince, fauna aquática”) que “neste momento, o sistema de Churince é essencialmente um sistema morto, ao menos em relação à sua condição anterior”.
Ao menos três espécies de peixe e duas espécies de moluscos, todas endêmicas para o ecossistema, podem ter sido “extirpadas deste sistema”, e “espécies ambientalmente mais resistentes também tiveram o tamanho da população reduzida e foram deslocadas na distribuição geográfica do sistema”, escreveu Carson. Ele concluiu sua tese alertando que “deter a extração de água (do ecossistema) pode já ser muito pouco, muito tarde”.

Em Cuatrociénegas, a diversidade de micróbios é extraordinária, é a mais antiga e conhecida do planeta

‘Ecocídio’

Embora o presidente Felipe Calderón tenha prometido desde 2007 investir aproximadamente 75 milhões de dólares para preservar a reserva natural, apenas cerca de oito milhões de dólares foram desembolsados. Em setembro, Conagua assinou um acordo com a Comissão Nacional de Áreas Naturais Protegidas para canalizar 100 litros de água por segundo em Churince, uma quantidade que deveria subir para 300 litros em dezembro. Mas o acordo foi repentinamente cancelado, presumivelmente devido a pressões de grandes produtores agrícolas.
Pesquisadores, cujos alertas no decorrer dos últimos anos recaem sobre ouvidos surdos, recomendam a imediata proibição da extração de água e a implementação de projetos alternativos de agricultura para otimizar o uso da água. “O problema é que as autoridades pensam na água não como algo essencial à vida, mas como algo que pode ser comprado e vendido. Isso tem levado ao ‘ecocídio’. É impossível reverter o dano, porque as antigas reservas se foram. A água do subterrâneo profundo está se esgotando e, sem isso, Cuatrociénegas não é nada”, disse Souza.

Cientistas da Universidade de Montana (EUA) coletam amostras de uma salina no Vale de Cuatrociénegas

Prevendo que a área não vai sobreviver mais do que dois verões nas condições atuais, o pesquisador lançou um abaixo-assinado online para impelir o governo a resgatar o ecossistema ameaçado. Até agora ela coletou pouco mais de três mil assinaturas. Em setembro de 2010, Souza deu início a um inventário da biodiversidade em um projeto patrocinado pelo escritório mexicano do World Wildlife Fund (WWF) e pela Carlos Slim Foundation para “entender quem vive onde, desde o mais ínfimo vírus até os coiotes, e quem alimenta quem”, explicou Souza.
“Existem interesses econômicos muito poderosos envolvidos aqui”, disse o Professor Valdés. “Mas alfafa não deve mais ser cultivada em Cuatrociénegas, porque a comunidade local não colhe benefícios econômicos a partir dela, e se faz necessário um esforço de reconversão produtiva.”

NASA

A NASA (sigla em inglês para National Aeronautics and Space Administration) está estudando microorganismos em Cuatrociénegas que são similares aos que habitaram o planeta centenas de milhões de anos atrás, para ajudar a entender as origens da vida na Terra. Ela também considera esta zona úmida útil para descobrir vida em Marte, considerando que as condições são aparentemente similares às condições naquele planeta.
A última sonda da NASA em Marte, “Curiosity”, foi lançada em novembro com um laboratório de ciência, para explorar uma cratera naquele planeta que Souza – convidado para o lançamento – descreve como “semelhante à Churince”.