Saúde

Revista Mercado Edição 37 - dezembro 2010

255 mil brasileiros não sabem que têm o vírus da AIDS

DA Agência Brasil

630 mil brasileiros estão com HIV no Brasil, sendo que mais de 40% não sabem que foram infectados

Cerca de 630 mil brasileiros vivem com vírus da AIDS – o HIV – em todo o país, desses, 255 mil não sabem que foram infectados. Outra informação dá conta de que o número de testes de HIV distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) passou de 3,3 milhões, em 2005, para 8,9 milhões em 2009, mesmo ano em que o índice de testagem para HIV foi de 38,4%l. Os dados constam no boletim epidemiológico do Ministério da Saúde (MS), divulgado no dia 1º de dezembro, data em que se comemora o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS.
Ainda segundo o boletim, a maioria dos brasileiros com HIV em 2009 é formada por brancos (47,7%). Em seguida, estão os negros (46,8%), os amarelos (0,5%) e os indígenas (0,3%). O restante, 4,7% do total de pacientes não declararam raça ou cor. Entre os casos registrados no ano passado (20.832), a maior proporção de infecções está entre brasileiros que têm entre oito e 11 anos de estudo (30%). Em 1999, a incidência era maior entre aqueles com menos escolaridade: 29,5% dos casos foram verificados entre pessoas com até três anos de estudo. Já entre as mulheres infectadas, a média é de quatro a sete de anos de estudo e, entre os homens, de oito a 11.

Novas infecções aumentaram para 38,5 mil em 2009

Outra informação divulgada pelo MS é que o número de novas infecções por HIV no Brasil passou de 37.465, em 2008, para 38.538, no ano passado. Porém, o próprio ministério não considera esse crescimento preocupante, porque resulta do aumento de testagens em todo o país.
O boletim epidemiológico aponta ainda que 11.839 pessoas com HIV morreram em 2009, praticamente o mesmo número registrado em 2008 (11.815). Desde os anos 80, mais de 229 mil pessoas morreram em decorrência da doença.

Atraso no diagnóstico é o desafio

Entre os desafios do combate à aids no Brasil, está o atraso no diagnóstico da doença. Para o presidente do Fórum de Organizações Não Governamentais (ONGs) Aids do estado de São Paulo, Rodrigo de Souza Pinheiro, ainda faltam informações e campanhas nesse sentido.

Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum ONGs Aids, ainda existem muitos desafios a ser vencidos, um deles, é o diagnóstico tardio do HIV

Segundo Pinheiro, o Estado cumpre seu papel de certa forma, mas ainda há muitos desafios. “Um deles é a questão do diagnóstico tardio, muitas pessoas ainda demoram para ser diagnosticadas, então acho que deveríamos ter mais campanhas, mais serviços que pudessem atender e conscientizar a população a fazer o teste de HIV”, afirma. “Outro grande desafio no Brasil é a inclusão de pessoas soropositivas na sociedade. O preconceito com as pessoas que convivem com HIV/aids é muito grande. Uma das questões que temos trabalhado é para que realmente venha a diminuir essa questão do preconceito e da discriminação”, diz.
De acordo com ele, é importante que as pessoas tenham mais informações sobre a transmissão do vírus HIV. Outra atitude que o Fórum ONGs AIDS está tomando é tentar aprovar na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 6.124/2005 que criminaliza a discriminação de pessoas que vivem com o HIV. “A questão da prevenção também é um grande desafio, principalmente para as populações mais vulneráveis, e o Estado deixa a desejar nesse sentido. Se a gente analisar, no Brasil temos falhado muito na questão do acesso, tanto das pessoas que vivem com o HIV, quanto das demais que precisam do serviço de saúde. Isso é um grande desafio para o governo que está assumindo. É necessário também facilitar acesso aos preservativos e aos testes. Em alguns estados, principalmente do Norte e Nordeste, isso ainda é muito complicado, e é onde a epidemia tem mostrado um nível de crescimento”, alerta Pinheiro.

Portadores do HIV contam como encaram a doença

Para marcar o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, pessoas que vivem com o vírus HIV relataram suas experiências. Nas conversas, elas contam como encaram a doença, a relação com a família e os amigos e a questão do preconceito.
É o caso da estudante Nelma Borges, 17 anos, que vive com a doença desde que nasceu, transmitida pela mãe durante a gravidez. Ela diz que a Aids não a assusta, mas que nem sempre foi assim. “Quando criança, era difícil. Para mim, a vida tinha acabado. A partir do momento em que aprendi a entender o que era, como era, comecei a ver a vida de forma mais tranquila”, diz a jovem, moradora do Distrito Federal (DF).

“Quando criança, era difícil. Para mim, a vida tinha acabado. A partir do momento em que aprendi a entender o que era, como era, comecei a ver a vida de forma mais tranquila”

Nelma conta que lidou com o preconceito na escola e nas relações pessoais. “As pessoas que andavam comigo tinham bastante [preconceito]. Alguns namoradinhos também. Na escola, convivi com um colega que tinha. Quanto à família, não sofri nenhuma discriminação. Os amigos de verdade nunca deixaram de conviver comigo por conta disso”.
Assim como Nelma, CF (*), 18 anos, também contraiu o vírus por transmissão vertical (de mãe para filho). Aos 13 anos, descobriu a doença. Por decisão da família adotiva, ele revelou sua sorologia positiva apenas a pessoas próximas. Morador também do Distrito Federal, CF admite que não enfrentou  o preconceito, porém conhece quem já passou pela situação. “Eu nunca sofri, mas sei de pessoas que tiveram de mudar de escola”, conta. Sobre o futuro, disse que os projetos de vida continuam os mesmos e que a aids é apenas “ um detalhe a mais para ter cuidado”.

O servidor público aposentado Edson dos Santos, de Santo André (SP), diz que apoio familiar e dos amigos é importante para lidar com a Aids e impedir o preconceito

Aos 43 anos, o servidor público aposentado Edson dos Santos, de Santo André (SP), fala com tranquilidade sobre a doença com a qual convive desde 1997. A descoberta foi por acaso, quando fez exame para detectar uma tuberculose. “O médico ficou sem graça de me dar o resultado. Eu mesmo falei que nem era preciso pedir uma segunda amostra. Não tive a sensação de que iria morrer”, diz Edson, que contraiu a doença pelo sexo sem preservativo.
Como agente administrativo, Edson exerceu a função até 2006, quando foi obrigado a se aposentar devido à saúde debilitada – teve seis tuberculoses e ficou em coma cerebral. Atualmente, é ativista do Movimento de Prevenção à Tuberculose e da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids.

Para ele, o apoio familiar e dos amigos foi importante para lidar com a doença e impedir que fosse vítima de qualquer tipo de preconceito. “Quando falei para minha mãe que tinha aids, ela disse que eu não era o primeiro e nem o último. Nunca permiti que fizessem isso comigo (preconceito). Temos que encarar e mostrar que estamos vivendo”, relata.

Sudeste concentra mais da metade dos casos

O país registrou, de 1980 a junho de 2010, 592.914 casos de infecção por HIV. A maior concentração está na Região Sudeste, com 344.150 (58%). Em seguida, vêm o Sul, com 115.598 (19,5%); o Nordeste, com 74.364 (12,5%); o Centro-Oeste, com 34.057 (5,7%); e o Norte, com 24.745 (4,2%).
A Região Sul, entretanto, registra a maior taxa de incidência do país, com 32,4 casos em cada 100 mil habitantes, seguida pelo Sudeste (20,4), Norte (20,1), Centro-Oeste (18) e Nordeste (com 13,9).
Esses dados também fazem parte do boletim epidemiológico divulgado no dia 1º pelo Ministério da Saúde.

Casos entre homens superam os de mulheres, mas diferença é cai

O número de casos de Aids no Brasil é maior entre os homens. De 1980 até junho de 2010, foram registradas 385.815 infecções (65,1%) de pessoas do sexo masculino contra 207.080 (34,9%) entre as do sexo feminino. Entretanto, o Ministério da Saúde já fala em uma feminização da epidemia no país, já que a diferença entre homens e mulheres é cada vez menor.

“A proporção de mulheres infectadas para cada homem com a doença passou de 6, em 1989, para 1,6, no ano passado”

Vick Tavares, presidente da ONG Vida Positiva, que recebe crianças e adolescentes portadores do vírus HIV, mostra a “Farofa da Vovó Vicky”, que lançou para ajudar na complementação da renda da instituição

De acordo com o boletim do MS, a proporção de mulheres infectadas para cada homem com a doença passou de 6, em 1989, para 1,6, no ano passado. A taxa de incidência entre as pessoas do sexo masculino chegou a 25 casos em cada 100 mil habitantes contra 15,5 entre as mulheres.
Em ambos os sexos, a incidência é maior na faixa etária dos 30 aos 49 anos. No caso dos homens, os casos aumentam a partir dos 40 anos e, no das mulheres, a partir dos 30 anos.
No ano passado, a taxa de incidência de Aids em mulheres com 50 anos ou mais dobrou em relação a 1999, passando de 5,7 casos em cada 100 mil habitantes para 12,3 casos.
Vicky Tavares é presidente da organização não governamental (ONG) Vida Positiva, localizada em Taguatinga, cidade do Distrito Federal. Há oito anos, ela cuida de crianças e jovens que têm o vírus. No grupo, há sete adolescentes na faixa de 13 a 17 anos de idade. Para ela, o preconceito está presente no dia a dia dos jovens soropositivos e é cada vez mais intenso. “Para um jovem é complicado viver com o HIV. A sociedade e o Estado como um todo não compreendem isso. Controlamos a carga viral dos nossos meninos, mas infelizmente não zeramos o preconceito das pessoas, seja nas cidades, com os professores, vizinhos. Diariamente presenciamos histórias impressionantes”, destaca.

(* Nome fictício para preservar a identidade do entrevistado)