Entrevista

Revista Mercado Edição 39 - fevereiro 2011

A força que vem do cooperativismo

POR Érica Magalhães

A Calu, cooperativa leiteira com quase 50 anos de mercado, vai investir na construção de uma nova indústria de laticínios no DI de Uberlândia, com capacidade para beneficiar quase 400 mil litros por dia. O presidente da cooperativa, Eduardo Dessimoni, atendeu a MERCADO para uma entrevista em que falou do investimento, de crises, da concorrência e da força do cooperativismo

Após 49 anos de atuação no mercado, período em que viveu altos e baixos, a Cooperativa Agropecuária Ltda. de Uberlândia (Calu) se reestruturou, diversificou seu mix de produtos, enfrentou de igual para igual a concorrência e agora está se preparando alçar voos mais altos. O marco dessa nova época é a construção de uma nova e moderna indústria de laticínios, em área de 60 mil metros quadrados, localizada no Distrito Industrial de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. A pedra fundamental do empreendimento foi oficialmente lançada em solenidade realizada no dia 24 de fevereiro. Para o empresário e também diretor presidente da Calu, Eduardo Dessimoni Teixeira, essa conquista e outras mais, ao longo de quase cinco décadas, giram basicamente em torno de um só segredo: a força do cooperativismo.
A construção desse novo laticínio colocará o processo de industrialização da Calu como um dos mais modernos do país. A nova fábrica terá capacidade de produção aproximada de 400 mil litros de leite por dia. Todo maquinário e também os processos de produção estão em conformidade com as mais rígidas normas de qualidade.
A marca Calu, tradicional e reconhecida no mercado de laticínios, é responsável por levar o nome de Uberlândia para várias regiões do Brasil por meio de seu mix de produtos. Entre as praças de atuação da cooperativa, estão regiões e estados como Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba, interior de Goiás, São Paulo e Rio de Janeiro, e ainda o Norte e o Nordeste do país.
Atualmente, a cooperativa conta com mais de mil cooperados ativos – produtores, fornecedores de leite – e um total aproximado de três mil associados. Mas, ao longo dos anos, desde a sua fundação, em 24 de maio de 1962, a Calu enfrentou crises, sofreu e superou concorrentes – incluindo multinacionais – e hoje é uma empresa sólida no mercado, cuja produção diária de leite oscila em torno de 165 mil litros, capacidade esta que irá mais que dobrar com a nova fábrica.
Para saber um pouco da história, das crises e perspectivas do negócio para os próximos anos, a revista MERCADO entrevistou o diretor presidente da Calu, Eduardo Dessimoni, que, diga-se de passagem, é um dos grandes responsáveis por essa “volta por cima” da cooperativa, num exemplo de boa gestão.

Revista Mercado Uberlândia: São 49 anos de história. Muitas empresas hoje não chegam a completar cinco anos. Qual o segredo que mantém a Calu há tanto tempo no mercado?
Não há segredo. A grande responsável por manter a Calu forte e cada vez mais atuante no mercado é a força do cooperativismo. A Cooperativa, como todas as empresas, passou por várias dificuldades, e graças à união de seus cooperados, manteve-se firme e cada vez mais forte.

Revista Mercado Uberlândia: Como fortalecer a proposta de cooperativismo em tempos em que há uma concorrência muito grande no mercado?
A proposta cooperativista no setor lácteo é forte, porque o trabalho do produtor de leite não termina na porteira da sua fazenda. Por meio de sua cooperativa ele industrializa e comercializa o seu produto. Além disso, o acirramento da concorrência acontece simultaneamente à melhoria dos meios de fiscalização. E esse caminho melhora muito a competitividade do sistema cooperativista.

Revista Mercado Uberlândia: A Calu é tradicional. Tem um nome forte na região. A que se deve tanto sucesso?
Esse sucesso não aconteceu de um dia para o outro. Ele é o resultado de um trabalho de 49 anos de união, persistência e competência em um mercado muito exigente. A marca Calu cresceu junto com a cidade de Uberlândia, falta agora modernizar o processo de industrialização para fazer jus a essa marca tão forte.

Revista Mercado Uberlândia: Ao longo desses anos, muitas dificuldades foram enfrentadas pela Calu. Crises no preço do leite no mercado, concorrência com empresas multinacionais, etc. Mas a Cooperativa passou por todas elas e mostrou ser forte. Qual o segredo de tudo isso?
Além da marca forte, um dos principais valores para superar crises está na força de seus cooperados e colaboradores. A Calu, hoje, faz parte da vida de muitas famílias. Quarenta e nove anos são uma vida. Muitos produtores nasceram e cresceram com a Calu.

Revista Mercado Uberlândia: A construção da nova fábrica é um grande passo na história da Calu? Por quê?
Porque é o elo que faltava para consolidar a marca Calu em suas áreas de atuação, pois essa marca, aliada a uma estrutura industrial eficiente, torna o negócio do leite cada vez melhor para os produtores associados.

Revista Mercado Uberlândia: Quais os benefícios que virão com o novo laticínio?
Com a nova fábrica, vamos aumentar a capacidade de produção, ampliar o portfólio de produtos e reduzir custos de produção.

Revista Mercado Uberlândia: Qual a previsão de inauguração da nova fábrica?
Em um ano e meio as obras deverão estar concluídas.

Revista Mercado Uberlândia: O produtor sempre sofre com as oscilações de preço no mercado. Como é para a Cooperativa administrar o preço pago ao produtor e o preço do produto acabado?
A Cooperativa procura sempre reduzir as suas margens ou até trabalhar com margem negativa em períodos em que os produtos lácteos têm um preço bastante reduzido, com isso diminuindo as diferenças de preço nos diversos períodos do ano.

Revista Mercado Uberlândia: O que tem sido feito pela Calu em prol do produtor?
Os maiores investimentos estão sendo feitos na assistência técnica, treinamentos e cursos aos produtores. Esse é um trabalho de crescimento em longo prazo. Temos que treinar técnicos, sensibilizar produtores da necessidade de cada um ser assistido e fazer o planejamento de sua propriedade com um técnico. Esse técnico tem que estar capacitado a garantir a eficiência das técnicas a serem implantadas.

Revista Mercado Uberlândia: Muitas cooperativas hoje aderiram ao processo de fusão. A Calu pensa nessa hipótese?
Sim, todos os investimentos propostos estão em acordo com a possibilidade de, a qualquer momento, firmarmos parcerias, fusões e associações com outras cooperativas.

Revista Mercado Uberlândia: Minas Gerais e a região do Triângulo Mineiro têm uma participação expressiva na bacia leiteira do Brasil. No seu ponto de vista, a pecuária leiteira ainda pode crescer mais por aqui? Como?
Sim. A pecuária leiteira tende a crescer em regiões onde o cooperativismo é forte. Todos os esforços estão sendo feitos no sentido de tornarmos o sistema cooperativo cada vez mais forte em nossa região.

Revista Mercado Uberlândia: Sabemos que produtores de outros países estão de olho na produção de leite no Brasil. Isso é um risco para o país? Por quê?
Os produtores que estão começando a produzir leite no Brasil são os neozelandeses. Estão utilizando todas as tecnologias disponíveis em nosso país, aliadas a uma cultura de produzir leite e planejar os seus passos acompanhados por técnicos altamente capacitados. Podemos afirmar que, se não mudarmos de postura com relação à adoção de tecnologias de produção, esses produtores poderão, sim, ocupar um espaço cada vez maior em nosso mercado.

Revista Mercado Uberlândia: Como você avalia o agronegócio hoje no Brasil?
O agronegócio brasileiro é extremamente carente de uma infraestrutura adequada. Os produtores brasileiros competem em um mercado onde seus concorrentes contam com infraestrutura em seus países muito mais eficiente. O nosso problema é a falta de uma política de longo prazo para o setor.

Revista Mercado Uberlândia: Quais as perspectivas do agronegócio para os próximos anos no país, especialmente em relação à pecuária leiteira?
Nós estávamos caminhando para sermos grandes exportadores de lácteos e mesmo com um revés provocado por uma política cambial desfavorável ao setor, sem nenhuma medida compensatória para manter nossa competitividade junto aos concorrentes, estamos nos tornando um dos maiores importadores de lácteos novamente.
Os países exportadores, quando se deparam com situações desfavoráveis, tomam medidas compensatórias a tempo de evitar o revés acontecido no Brasil. Isso vem a corroborar o que afirmamos: nosso país não tem uma política de longo prazo para o setor.
Se controlarmos melhor a entrada de lácteos no país, as perspectivas não são ruins devido ao mercado interno comprar cada vez mais produtos lácteos, pelo crescimento da economia nacional.

Revista Mercado Uberlândia: Para finalizar, qual a mensagem que você deixa para o produtor que quer crescer na atividade leiteira?
O negócio de produção de leite é bom, desde que seja feito com planejamento e acompanhamento de técnico capacitado.
Não existe espaço mais para produzirmos leite de maneira amadora e sem adoção de tecnologia de ponta. Isso não significa gastos, mas sim fazer um aproveitamento máximo de todas as potencialidades da propriedade.