Especial

Revista Mercado Edição 38 - janeiro 2011

Acidente é o maior inimigo da vida

POR Evaldo Pighini | Editor | Min. da Saúde | Cepa

Vítimas acidentadas representaram 90% dos atendimentos em urgências e emergências. Quedas e acidentes de trânsito são as principais causas, sendo a ingestão de álcool antes da ocorrência relatada por 8,1% dos pacientes

Os acidentes de trânsito são uma das principais causas de atendimentos em urgências e emergências

As vítimas de acidentes somaram 35.646 atendimentos do total de 39.665 registros de pessoas acolhidas em serviços sentinelas de urgência e emergência no Brasil. Isso representou 89,9% dos atendimentos identificados pelo Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA) do Ministério da Saúde. Divulgadas em dezembro, as informações coletadas constam de levantamento feito junto a 74 serviços de saúde de 23 capitais e Distrito Federal (quadro abaixo) entre setembro e novembro de 2009.

Capitais com serviços sentinela para acidentes e violências:

Palmas, Porto Velho, Boa Vista, Macapá, Rio Branco, Goiânia, Campos Grande, Brasília, Maceió, Fortaleza, Natal, Recife, Aracaju, Salvador, Teresina, São Luís, João Pessoa, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Vitória, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre

Os homens foram os que mais necessitaram de atendimento por conta de acidentes, com 23.082 registros (64,8% do total). Para o sexo feminino, o número e a proporção caíram quase pela metade – 12.515 (35,2%). Não houve registro do sexo de quarenta e nove pessoas (0,1%).
Entre os homens, as duas principais causas de acidentes foram as quedas (31,8%) e os acidentes de transporte (29,6%). Essas causas se repetem na mesma ordem para o sexo feminino, com 45% e 20,5%, respectivamente. Pessoas de 20 a 29 anos foram as que mais procuraram atendimento, sendo 22,9% do total de vítimas de acidentes.

Entre os homens, as duas principais causas de acidentes foram as quedas (31,8%) e os acidentes de transporte (29,6%)

Entre os homens, as duas Tipos de acidentes – A análise dos dados mostra que as principais causas de acidentes identificadas pelo VIVA foram as quedas (36,5%) e os acidentes de trânsito (26,4%). Também entraram no levantamento os ferimentos com objetos que cortam ou perfuram (7,2%), choque contra pessoa ou objeto (6,5%), lesões ou torções (4,7%), além de acidentes envolvendo penetração, ingestão ou inalação de corpo estranho (4,5%). Houve, ainda, registros de acidentes com objetos que caíram em cima da vítima (3,7%), acidentes com animais (3,2%) e queimaduras (2,2%).
Atendimentos de emergência provocados por sufocação, afogamento, envenenamento, acidentes com arma de fogo e situações não especificadas foram incluídas na categoria “outros” e representaram apenas 3,6% do total de pessoas atendidas e participantes da pesquisa. Do total de atendimentos por acidentes, 23,5% foram relacionados ao trabalho, sendo 14,2% em mulheres e 28,7% em homens.
De acordo com a coordenadora da área de Vigilância e Prevenção de Acidentes e Violências do Departamento de Análise de Situação de Saúde (Dasis), Marta Silva, as quedas podem ser evitadas com cuidados que variam conforme o grupo etário. “As crianças, por exemplo, devem ficar sob a supervisão dos adultos, sejam os pais ou responsáveis. Nas residências, deve haver proteção de móveis, telas em janelas e varandas, uso de tapetes antideslizantes, cercadinhos e demais mecanismos de segurança”, explica.

Quanto aos idosos, também vulneráveis às quedas, a recomendação é adaptar banheiros, retirar tapetes, usar assentos adaptados para banho, etc.

Bebida alcoólica – Realizada desde 2006, esta edição do VIVA também apurou se os indivíduos que procuraram atendimento haviam ingerido bebida alcoólica – um hábito mais frequente em homens e um importante fator de risco para acidentes, especialmente os acidentes de trânsito e as violências.
Pela primeira vez, o questionamento foi feito diretamente aos pacientes. Antes, era anotada somente a suspeita do entrevistador de que a pessoa atendida apresentava indícios de ingestão de bebida alcoólica, tais como o hálito forte e dificuldade para articular palavras.
Em 8,1% dos casos as pessoas estavam alcoolizadas e em 6,7% houve suspeita de terem bebido. Entre os homens, o percentual sobe para 10,6% entre os que declararam ter bebido antes do acidente e 8,9% foram classificados como suspeitos. Para as mulheres, os percentuais caem para 2,7% e 3,7%, respectivamente.

Período - De acordo com o VIVA, os acidentes foram mais frequentes durante o dia. No entanto, há variações, como o aumento de registros a partir das 6h, com pico por volta das 12h. No período da tarde, verifica-se redução, mas com aumento gradual e pico por volta das 18h, coincidindo com o retorno do trabalho para casa. Do total dos atendimentos, 26% foram realizados pela manhã, 36% à tarde e 38% à noite.
Local do acidente – O local mais comum do acidente foi a residência (37,7%). Em seguida, vieram as vias públicas, como ruas e praças (35,5%). Entre as mulheres, 51% dos acidentes ocorreram na própria casa e 31,4% em vias públicas. Entre os homens, a situação se inverte: 37,7% dos acidentes ocorreram nas ruas e 30,3% no ambiente doméstico. Quanto ao tipo de lesão sofrida, no geral as principais foram corte ou laceração (28,4%), torções ou luxação (19,5%) e contusão (18,1%).

Maioria dos acidentes pode ser evitada

Se os números do VIVA que destacam a quantidade de vítimas de acidentes atendidas nos serviços sentinelas de urgência e emergência no Brasil por si só chamam a atenção, o maior alerta, entretanto,  é que a grande maioria dos acidentes poderia ser evitada, o que não é segredo para ninguém.
No caso dos acidentes de trânsito, por exemplo, cerca de 90% deles simplesmente não aconteceriam com conscientização e mudança de atitude, tendo em vista esse percentual ter como causa as falhas humanas, portanto, poderiam ser evitados com mudanças comportamentais.
Entre as principais causas estão negligência (desatenção ou falta de cuidado ao realizar um ato), imprudência (má-fé: velocidade excessiva, dirigir sob efeito de álcool, falar ao celular, desrespeitar sinalização, etc.) e imperícia (falta de técnica ou de conhecimento para realizar uma ação de forma segura e adequada).

O desrespeito à sinalização, atitude que poderia ser evitada, é uma negligência comum que resulta em muitos acidentes

A velocidade pode ser tanto um fator agravante quanto a causa determinante de um acidente de trânsito, pois quando um carro colide com um obstáculo, na realidade ocorrem três colisões: do carro, dos passageiros com o interior do carro e dos órgãos internos do ocupante contra a estrutura do seu corpo (esqueleto). Com isso, quanto maior a velocidade, maior o impacto, mais graves as consequências da colisão e maior a possibilidade de morte.
Além disso, a velocidade também aumenta a distância percorrida durante o tempo de percepção e reação, a distância de frenagem e de parada total do veículo, o que provoca a redução das chances de o condutor evitar a colisão.
Quando um veículo se envolve em um acidente, a velocidade excessiva também pode aumentar a deformação na estrutura do carro, reduzir o espaço interno da célula de sobrevivência, aumentar o contato do corpo dos ocupantes com as estruturas rígidas do veículo e entre os ocupantes.

Quando um veículo se envolve em um acidente, a velocidade excessiva também pode aumentar a deformação na estrutura do carro

Confira no quadro a seguir como a velocidade pode interferir na distância necessária para parar totalmente um carro:

Velocidade Distância total de parada sobre

pista de asfalto

Piso seco Piso molhado
50 km/h 51 m 62 m
60 km/h 65 m 83 m
100 km/h 140 m 201 m
120 km/h 188 m 279 m
Obs: Note que, ao dobrar a velocidade de circulação, a distância total de parada do veículo quase triplica.

“Ainda existe no Brasil uma crença incorreta e generalizada de que o acidente de trânsito acontece porque ‘Deus assim quis’, ou seja, o acidente é uma fatalidade e nada pode ser feito para evitá-lo. Porém, como vimos anteriormente, isso não é verdade. A grande maioria dos acidentes de trânsito pode ser evitada. Uma vez consciente de sua responsabilidade, o condutor pode e deve praticar uma condução segura e preventiva a fim de evitar os riscos presentes no trânsito”, diz Dennys Riper.

Velocidade e atropelamento

A gravidade dos atropelamentos mantém direta relação com as características físicas e com a dinâmica dos corpos em conflito. O fato de o impacto aumentar em proporção muito maior do que a velocidade confere aos atropelamentos consequências particularmente severas em decorrência da vulnerabilidade de um corpo frente a um veículo.
O Departament for Transport britânico* realizou um estudo que comprova a relação entre a velocidade do veículo no impacto e a gravidade das lesões:

  • A 32km/h, 5% dos pedestres atingidos morrem, 65% sofrem lesões e 30% sobrevivem ilesos;
  • A 48km/h, 45% morrem, 50% sofrem lesões e 5% sobrevivem ilesos;
  • A 64km/h, 85% morrem e os 15% restantes sofrem algum tipo de lesão.

*Fonte: UK Department of Transport Traffic Advisory Leaflet 7/93 (TAU, 1993)

A 32km/h, 5% dos pedestres atingidos morrem, 65% sofrem lesões e 30% sobrevivem ilesos

Acidentes domésticos

Outra constatação do VIVA que também é bastante preocupante tem a ver com o local mais comum onde os acidentes acontecem. A maioria, 37,7%, ocorre dentro de casa e da mesma forma que os acidentes no trânsito, grande parte poderia ser evitada.
Há muito tempo que os acidentes domésticos (dentro de casa) são alvo de pesquisas e discussões. Nesse ambiente, excluindo adultos e tomando como exemplo as crianças, todo cuidado é pouco. Isso porque boa parte do risco a que as crianças estão expostas está dentro de casa, nos brinquedos e pequenos objetos, além do manuseio de líquidos quentes e produtos tóxicos, principalmente os utilizados na limpeza doméstica.
Só para se ter uma ideia, as quedas são responsáveis por 74,6% das internações de menores de 15 anos em hospitais. Em seguida estão atropelamentos (8,4%) e queimaduras (5,8%). Os casos fatais são provocados por afogamento (27,7%), atropelamento (25,7%) e acidentes com transporte (18,6%). Já a sufocação é a principal causa de óbito por acidente em menores de um ano. Esses dados foram extraídos de pesquisa feita pelo Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde do Estado de São Paulo.

Outro perigo que existe dentro de casa é o tanque de lavar roupas. Os tanques de concreto pesam de 50 a 90 quilos e o acidente acontece porque os pés de apoio anteriores costumam ser retos, concentrando o centro da gravidade nas laterais. As crianças se penduram e se apoiam no tanque e, caso ele não esteja bem preso à parede, acaba tombando em cima da criança. A queda do tanque pode acarretar sérias lesões ou ainda levar à morte.
Além do tanque, lavatórios de louça e vasos sanitários também são alvo de acidentes, por isso todo cuidado é pouco. É necessário checar as condições de segurança desses materiais, se estão instalados adequadamente, fixos ou ainda chumbados na parede, para evitar qualquer tipo de acidente.